Martha Marcy May Marlene Nuno Reis, 13 de Fevereiro de 201223 de Agosto de 2025 Um dos mais aclamados indie do ano passado foi este “Martha, Marcy May, Marlene”. Aqui somos apresentados a Martha que, apesar de jovem, já passou por muito. Numa das suas deambulações de adolescente foi parar a uma comunidade nas montanhas Catskill. Com a lavagem cerebral que lhe é feita pelo culto não só muda de nome para Marcy May como perde a capacidade de decidir e de julgar. Até que um dia não aguenta mais e foge. A história acompanha Martha no regresso à vida normal junto da irmã mais velha a quem esconde o seu passado. Só que o passado não permanece escondido. Alucinações da vida como Marcy assombram-lhe o presente a tal ponto que não sabe onde e quando está colocando em risco os que a rodeiam. Este filme foi profundamente aclamado pelos círculos de críticos por todo o país e em Sundance, mas acabou por fracassar nos prémios maiores. Isso talvez seja fácil de explicar pois a maioria dos prémios que teve foram de realizador ou actriz revelação e nessa área percebe-se que tenha dizimado a concorrência. Os estados em que ganhou contra gente grande ( Arizona, Ohio, Vancouver) podem simplesmente ter sentido empatia por esta história, tão perturbadora para o comum americano. É que esta família é em tudo semelhante aos cultos que loucos como Charles Manson criavam. Os pseudónimos, o sexo ritual, a hierarquia, os ideais, a relação com o mundo, as consequências para os membros e para o exterior…. Por isso há duas formas de ver o filme: como uma criação de um imaginário doentio; ou como um retrato de uma realidade escondida que persiste até aos nossos dias. Aqueles que conseguiram tirar o corpo dos cultos continuam com a mente presa a falsos costumes e valores. Mazelas que os impedem de se reintegrarem na sociedade convencional e os deixam perdidos entre dois mundos. Entre os actores destacam-se Sarah Paulson (de “Studio 60”) como a irmã compreensiva e John Hawkes (“Winter’s Bone”) como líder do culto. E a actriz que faz o filme sozinha é Elizabeth Olsen. A personagem é uma mulher frágil, manipulável, que como cada eleemnto do grupo tem a sua parte de culpa no facto de ter a vida arruinada. E no entanto não conseguimos deixar de sentir pena dela e de tentar culpabilizar a comunidade. O desempenho da jovem Olsen (é irmã daquelas gémeas actrizes que se tornaram as mais jovens trabalhadoras de sempre a chegarem a milionárias) é bom – não é por culpa dela que o conjunto falha – e é com agrado que se vê que tem novos filmes a caminho. Esta moda hollywoodesca de ir buscar as irmãs mais nova de actrizes conhecidas (Fanning, Mara, Olsen) continua a dar bons resultados. A realização de Sean Durkin é extremamente competente, a fusão das realidades está bem feita e o lote de actores é mais do que adequado. A fotografia tem aquele toque de realidade que só num indie se consegue sentir. Só que o argumento precisava de ser melhor trabalhado. O passado ser revelado aos poucos é um trunfo muito bem aproveitado, mas o presente fica perdido por entre os devaneios, tal como se o espectador fosse a personagem que não sabe onde está. E quanto ao futuro é uma valente incógnita. Ora quando nos fazem apegar à indefesa Martha (não confundir com a manipulada Marcy May de quem não queremos saber) queremos saber mais. Precisamos de saber mais. Assim parte rumo ao esquecimento, tal como o filme e o alerta que quisesse transmitir. Nota: Quanto à Marlene, estejam atentos para a descobrirem. Filmes Filmes 2011 Nuno Reis