Going the Distance Nuno Reis, 31 de Dezembro de 20101 de Janeiro de 2026 Amor sobre um fio (sem fios) Os tempos mudam, as comédias românticas não. Por vezes surge uma mais adaptada à sua época, mas normalmente isso ainda é pior porque fica datada. O verdadeiro desafio é fazer um filme com que o espectador se identifique sempre. Em “Going the Distance” temos uma história que poderia parecer velha. Quantas vezes já vimos “rapaz conhece rapariga, rapariga vai para longe, rapaz e rapariga mantêm a relação à distância”? O tema não tem sido muito usado em cinema pela dificuldade, mas em séries é frequente (por exemplo, na primeira temporada de “How I Met Your Mother“). Com as chamadas gratuitas e a vulgarização de outras formas de comunicação como as vídeo-chamadas, estas relações tenderão a ser mais comuns e o cinema terá de se adaptar. Erin é estagiária trintona num jornal Nova Iorquino. Luta por um contrato numa indústria em crise. Garrett trabalha numa editora discográfica onde tem de ouvir bandas pré-fabricadas a criar faixas de junk food para os canais auditivos. Estas duas personagens vão-se cruzar num bar e devido à química começam um namoro agradável. Até que Erin tem de voltar para San Francisco, na costa oposta, e ficam um bocado confusos sobre o seu futuro. O filme fala de manter uma relação sem contacto físico, fala de uma época com dificuldades de emprego, fala de uma geração com enorme descontentamento profissional e fala de arriscar por amor. O único problema é a forma como fala. O duo principal tem um grande início de relação, mas falta-lhes muito no resto, a começar pela credibilidade das situações. O argumentista baseou-se na relação à distância que o próprio viveu, mas no filme não se nota essa experiência. Aproveitam-se algumas cenas de trocas de mensagens e tudo o resto foi tratado de forma desleixada. Praticamente cada cena tinha o que era preciso para ser boa e ficou-se pela intenção. A realizadora não correspondeu às expectativas (causadas pela nomeação a Oscar há dez anos na categoria de documentário e há dois anos em Sundance para melhor realizadora nesse género). Se o romance está perdido algures entre as linhas telefónicas, a comédia é assegurada pelos amigos dele (Charlie Day, Jason Sudeikis) que se encarregam de ser totalmente irresponsáveis e loucos. Combinando-os com a irmã preocupada dela (Christina Applegate) a relação fica tão sabotada que apenas um verdadeiro amor poderia aguentar. No fim resta a moral de lutarmos pelos nossos sonhos. O mundo é cruel e tudo faz para separar duas pessoas, mas o indivíduo solitário tem de estar sempre à superfície. Filmes Filmes 2010 MúsicaNuno ReisRomComViagem