Io Sono l’Amore Nuno Reis, 29 de Dezembro de 201011 de Dezembro de 2025 Memória de uma época dourada do cinema italiano Em “Io Sono l’Amore” não temos um mero filme, temos toda a nostalgia de uma cinematografia que perde fulgor a cada ano que passa. Os tempos áureos do cinema italiano são coisa do passado e raramente aparece um título de grande destaque. “Io Sono l’Amore” tem sido tratado como o grande filme italiano. É mais correcto considerá-lo apenas como aquele que recorda os grandes filmes italianos. Os Recchi são uma família que enriqueceu com os têxteis na segunda metade do século XX. Quando o patriarca decide deixar a fábrica ao filho Tancredi e reformar-se, deixa também indicações específicas sobre o que desejava: a fábrica e as pessoas que lá trabalham são a riqueza da família e assim devem continuar. Os seus descendentes sempre viveram com luxo e assim continuarão. Mas o excesso de dinheiro tem as suas consequências. A começar por Emma, a esposa de Tancredi, que vive aborrecida num palácio-prisão onde tem como única distracção a organização de jantares. Ou Betta, filha dela, que é quase uma estranha por estudar fora. Nesta família o único que escapa à superficialidade é Edoardo Júnior, jovem atleta e respeitador dos ideais do avô. Enquanto tenta começar a sua vida pessoal (com Eva) e profissional (na empresa familiar, ajudando Antonio a abrir um restaurante) nota-se que é mais do que um miúdo novo-rico mimado, a bondade faz parte da sua forma de ser. A realização é ousada e não obedece a regras óbvias, a tentação de comparar a Visconti é enorme. A isso combinam-se os cenários e a fotografia que sugerem um filme mais velho do que realmente é. O resultado é que a primeira hora, movendo-se nos meandros da alta burguesia de Milão, é simplesmente adaptação. Lentamente o foco foge de Edoardo e centra-se em Emma que esteve sempre lá. É esta russa perdida em Itália que torna um filminho artístico numa experiência cinematográfica. Ela é Tilda Swinton que para o papel aprendeu russo e italiano que fala como primeira e segunda língua respectivamente. Como os diálogos soam a artificiais em todos os actores não se notam falhas particulares dela. E faz um trabalho fenomenal em expressões faciais, especialmente deliciosas quando se mostra desorientada a meio de uma conversa em inglês. Destacaria ainda a participação de Marisa Berenson (“Barry Lyndon“, “Cabaret“) como outra estrangeira arrastada pelos Recchi para uma vida de luxo em Itália. A direcção de actores é um dos pontos fortes do filme. Funcionam como família ou como indivíduos de acordo com as necessidades do momento. É um filme que exige do espectador. Ao contrário das produções comerciais vindas de outros sítios não nos é dado tudo mastigado. Para ver é precisa atenção, para apreciar os detalhes cénicos, e para estar preparado para avanços narrativos imparáveis. Infelizmente isso só é feito demasiado tarde tornando os últimos vinte minutos incríveis e deixando o resto com uma beleza quase inútil. O filme no seu todo resulta, tem muitos momentos de enorme qualidade que enriquecem um argumento potencialmente banal. Filmes Filmes 2010 caso amorosofamíliaMulher forteNuno ReisSexo