West Side Story (1961) Nuno Reis, 26 de Novembro de 202111 de Agosto de 2025 Apesar de ser eternamente associado ao clássico de Natal “The Sound of Music” e de eu apreciar mais as suas incursões no fantástico (The Andromeda Strain, The Day the Earth Stood Still, The Haunting ou Star Trek), Robert Wise será para sempre recordado como o homem que imortalizou “West Side Story” em película. Uma obra icónica dos palcos foi prontamente convertida para cinema e o êxito foi tal que arrecadou dez estatuetas nos Oscares, o quarto melhor resultado de sempre. Tal como na versão para os palcos, basta dizer que foi criado por Leonard Bernstein e Sondheim para assegurar enorme sucesso. O tema inicialmente pensado para a “East Side Story” era uma adaptação de Romeu e Julieta sobre os judeus e católicos no Lower East Side. Entretanto, a realidade da sociedade desviou o tema para a parte ocidental onde decorria um conflito que retratava a situação do país. Nos anos 50 os Estados Unidos estavam com vários problemas internos. O pós-guerra não trouxe apenas uma guerra fria, mas enormes tensões raciais. Por exemplo, foi em 1954 que se começaram a abolir as leis de segregação na educação de Jim Crow e foi em 1955 que Rosa Parks não se ergueu. A chegada de vários imigrantes porto-riquenhos – tratados cidadãos de segunda categoria há mais de um século – em plena crise económica e em fase de gentrificação, levou a confrontos. Este filme pegou no tema e colocou de um lado os Jets, americanos de origem europeia e há mais tempo no país que se acham os únicos americanos de pleno direito, a atravessarem uma crise económica, e do outro os Sharks, porto-riquenhos que tinham atravessado meio mundo para o melting pot que é Nova Iorque em busca de trabalho e do prometido sonho americano. Como no caso das famílias Capuleto e Montague, dois jovens que os Jets e os Sharks assumem como “seus”, conhecem-se por acaso e ficam atraídos por uma pessoa que lhes é proibida. Alheios aos problemas que causam e à raiva que fermenta, vão desenvolvendo sentimentos de amor. Conseguem fugir por entre as gotas da chuva, até ser marcado um conflito final que é suposto resolver a situação de uma vez por todas. E o que podem dois apaixonados fazer para evitar o derramento de sangue em nome do preconceito? Sendo eu um fã assumido de musicais, nunca fiquei totalmente convencido pela que é dita como mais majestosa obra do género. Sim, a abertura é imponente, seja pelo genérico invulgar, pelo estalar de dedos e pelo genial exposição de como se torca posições num jogo do rato e do gato consoante o número de elementos em cada equipa. Mas… e depois disso? As músicas são icónicas, só não dou por mim a cantar nenhuma delas por impulso. E quando canto, são apenas excertos. O elenco tem a enorme Natalie Wood a fazer-se passar por latina, o que se perdoa à menina querida do cinema de então, mas todos os outros são banais. Nem a aclamada Rita Moreno é tão evidente majestosa como supunha pelo que se dizia. Sem a devida bagagem histórica, é apenas uma transposição dos palcos para o ecrã (especialmente no que diz respeito à construção de cenários) de uma história muito ao gosto dos EUA que o resto do mundo tem dificuldade em interiorizar. E por ter visto depois da aventura nos Alpes onde muitos dos truques e tique pessoais de Wise são reaproveitados, só o estilo musical traz algo de novo. E isso pelo detalhe de incluir jazz, o que também pode funcionar bem com o público original, mas do outro lado do mundo não é tão eficaz. Músicas como “America” e “Somewhere” são imortais, “Tonight” e “I Feel Pretty” são engraçadas, mas não é um musical que pusesse nos meus tops. O desafio de refletir sobre questões de humanidade e justiça volta a ser relevante na época em que vivemos, com refugiados aos milhões e desconfiança sobre tudo e todos, mas não é este filme que muda mentalidades de quem odeia. Apenas angustia quem sofre com os trágicos protagonistas. Apesar de terem criado um calão próprio para não ficarem datados, ficou irremediavelmente preso à sua época. Filmes Filmes 1960's Nuno Reis