Cabrini Nuno Reis, 11 de Abril de 202411 de Agosto de 2025 Tendo eu passado o último ano e meio a mentorar dezenas de mulheres de enorme potencial que não deixam a sociedade ditar o que podem ou não fazer, foi com muita curiosidade que fui ao visionamento da biografia de Francesca Cabrini. Este nome quase desconhecido no nosso país, tem um estatuto de culto entre italianos e americanos que, ainda assim, não sabem toda a sua história. Por isso mesmo os Angel Studios – pequena produtora independente que aposta em temas cristãos e em crowdfunding para escolher as suas produções – acharam que esta heroína merecia alguma atenção. Se posso dar algum concelho, é que não explorem a biografia desta senhora antes de verem o filme. Se ainda não a conhecem, é melhor ir ver sem spoilers e ser surpreendido. Creio que até a sinopse do filme conta demasiado! Sintetizando, tudo começa quando a Madre Cabrini vai ao Vaticano para ouvir um novo ‘não’ ao seu pedido de fazer um orfanato no Extremo Oriente. Em vez disso, é desafiada a ajudar os italianos que são tratados como escumalha e estão a morrer aos milhares numa Nova Iorque que não os quer. Até já lá existe um orfanato que, sem ajuda urgente, terá de fechar e deixar os orfãos voltar para a rua. Guiada pelo seu fervor, aceita o desafio impossível e parte numa viagem de barco para espalhar amor e caridade, como Jesus. Mas ao chegar, sendo italiana, doente, e ainda por cima mulher, ninguém acredita que seja capaz de fazer a diferença e portanto não facilitam em nada a sua missão. Claro que isso só lhe dá mais motivação e garra para mudar mentes, comportamentos e fazer o correto, mesmo sendo apenas seis freiras contra tudo e todos. E a missão vai ficando mais complexa à medida que tem contacto com a miséria que é a realidade. O realizador Alejandro Monteverde, que já colaborou anteriormente com os Angel Studios, tem a tarefa dificultada por uma boa parte do filme ser falada em italiano. No entanto, a discriminação sofrida então pelos imigrantes italianos (que também foi a de negros, chineses, polacos e outros ao longos dos séculos) é muito semelhante há que os latinos ainda sofrem nesse mesmo país, pelo que a história terá tocado em pontos sensíveis para ele aceitar co-escrever e dirigir. Tem um trabalho competente, ainda que se note o condicionamento de estar a fazer um filme que é quase de propaganda. Por bom que seja ouvir várias frases icónicas que se podem citar diariamente, algumas delas parecem ter sido colocadas à força e não terem propriamente lugar num filme bastante longo (142 minutos) onde deveria haver espaço para tudo. No entanto, são frases inspiradoras que não poderiam faltar. Percebo a dificuldade de as cortar ou pior, substituir por algo mais discreto. Apesar disso, o filme consegue envolver o espectador o suficiente nesta história de redenção e superação. E como os feitos mais incríveis são parte da História, é mais fácil acreditar que Cabrini foi uma milagreira do que culpar o exagero da ficcionalização. Talvez esta obra peque (perdoem o trocadilho) por se focar demasiado em Cabrini ignorando quase todas as demais personagens, mas, mais uma vez, o filme é sobre a fundadora, não sobre a Ordem que ela criou. E Cristiana Dell’Anna, quase uma desconhecida, brilha num filme em que contracena com John Lithgow, David Morse e Jeremy Bobb, entre outros pelo que era difícil falar de alguém mais. Em suma, é um retrato preocupante de uma época não tão distante e cujos erros continuam a existir. Sobre como um indivíduo pode combater o mal e a ignorância. E sobre como os Estados Unidos ficam mais ricos com os imigrantes que acolhem, mesmo que façam tudo por os mandar embora. Está longe de ser a melhor opção em salas nesta altura, mas ao qual deve ser dada uma oportunidade quando o azar bater à porta ou uma tarefa parecer impossível. Filmes Filmes 2024 Nuno Reis