Ali G Indahouse Nuno Reis, 27 de Abril de 201028 de Agosto de 2025 Tenho sempre dificuldades em apreciar o humor de Sacha Baron Cohen. Reconheço que é muito diferente do convencional e tenta ser uma lufada de ar fresco, mas sai muitas vezes ao lado. No entanto, “Ali G Indahouse” é daqueles casos em que tudo correu bem. Ali G. é um cidadão britânico de classe baixa. Quando tentam fechar o centro comunitário onde ele educa a próxima geração, vai ter de levar o protesto longe. Até clegar à Câmara dos Representantes. Aí começa a envolver na política onde o querem tornar num peão, mas a sua autenticidade desbocada acaba por fazer dele o único político em quem as pessoas confiam. Nas palavras de Camilo Castelo Branco, conseguirá este anjo resistir à queda? Este filme foi dos primeiros a antecipar uma mudança social que se avizinhava. A política estava alheada das realidade e das pessoas e os eleitores queriam alguém diferente. Se melhor ou pior, só o tempo diria. Ali não é um político exemplar. Não é um cidadão exemplar. Não cumpre várias leis. Mas apesar de tudo isso, quando importa, consegue ser uma pessoa decente e fazer o que está certo. Essa é a diferença. Os políticos tão focados no seu umbigo e no que sempre se fez, não se aperceberam das mudanças sociais. Não perceberam que eles nem representavam as pessoas, nem elas se sentiam representadas por eles. E assim o status quo desapareceu ao primeiro candidato fora do convencional. O filme sabe que é ridículo e não o tenta disfarçar. De um lado temos actores sérios a fazer de políticos, como Michael Gambom e Charles Dance. Do outro uma cambada de ninguéns (onde se inclui o ainda por descobrir Martin Freeman) a fazer de membros de gangues. E ainda que Rhona Mitra tenha um papel bastante mau – onde o único critério no casting deve ter sido o corpo – todos os restantes actores se saem muito bem. Em especial Dance cujos dotes para a comédia têm andado escondidos após décadas em papéis extremamente sérios, sempre como ministro, comandante e demais variantes. O enorme contraste entre relaxamento e drogas leves de Ali, com a rigidez e altivez dos políticos é constante. Pontos opostos de uma sociedade onde todos terão de aprender a conviver com a diferença e a ouvir, e onde falta uma óbvia classe média por estar em extinção. O mundo estava a mudar e Cohen foi certeiro no alerta, ainda que satiricamente exagerado no formato. Filmes Filmes 2002 Nuno Reis