The Substance Nuno Reis, 20 de Setembro de 202423 de Outubro de 2025 Coralie Fargeat está de volta ao seu papel de embaixadora das causas femininas. Depois de “Revenge” onde exigia aos estupidamente ricos mais respeito pelas mulheres, agora traz-nos uma enorme crítica a um dos grandes problemas de Hollywood: as mulheres não estão autorizadas a envelhecer. Tudo começa com Elisabeth, uma estrela do antigamente tornada em vedeta televisiva com um programa de fitness, que aos 50 anos é convidada a reformar-se. A justificação é que ela merece a reforma, e o programa quer dar um novo rumo e apontar a nova audiências. A verdade óbvia é que tem de dar lugar a alguém mais sensual. Enraivecida, vai dar ouvidos a um estranho que lhe fala de uma oportunidade. Uma substância secreta que lhe pode dar uma nova juventude. Tem é regras bem específicas na utilização… O programa opta por Sue que tem toda a energia e jovialidade que procuram, além de ser um regalo para os olhos. Agora resta a Elisabeth lidar com o tempo livre, e a Sue com a fama repentina. A ironia maior do filme é que Elisabeth teria 50 e não era apelativa aos espectadores. Na verdade é interpretada por Demi Moore que tem 60 e não só parece ter tudo no sítio, como aguenta um filme nos ombros sem suar. Um peso pesado de Hollywood que certamente teria coisas a contar sobre a indústria, foi a escolha mais que perfeita para esta crítica de costumes. Engraçado ver em contraste com a personagem de Dennis Quaid, o produtor misógino e interpretado de forma ridícula e superficial, como a opinião que devemos formar dele. Esse sim, velho e fora de época. Talvez não precisasse de alguém tão conhecido para interpretar um quase espantalho, mas dá visibilidade ao filme. Quando chega a jovem Margaret Qualley – que os assinantes Netflix conhecerão da poderosa performance em “Maid” – sim. é jovem e praticamente perfeita em tudo. Mas fisicamente não está muito distante de alguém com o dobro da idade. Como filha de outra actriz icónica de décadas idas, sabe o que a indústria é. Sabe que o aspecto pode ser a melhor forma de se impor antes de as rugas se começarem a notar. E entrega-se totalmente num papel que parece secundário, mas apenas em duração. Tal como a veterana, é feita uma conexão quase imediata com o público e a interpretação é mais do que memorável. A história dicotómica entre a juventude e a experiência, os diferentes objetivos de vida, horários, desejos, interesses e tudo mais, é muito poderosa. É como revisitar os contos de Dorian Grey ou Dr. Jekyll com um olhar muito mais moderno e perceber que o outro lado da moeda, também está um ser pensante, com necessidades. E que todos os humanos só pensam no seu próprio umbigo, mesmo que com isso se prejudiquem mais do que pensam. Isto pode soar mal, mas é um elemento fantástico que estraga o filme. A parte não-fantástica do filme decorre sem problemas. No final, o que “Rabid” fez bem e podia servir de inspiração, aqui acaba por ser mais grotesco do que chocante. Foi como se o orçamento tivesse acabado, o argumento tivesse voado, e a equipa técnica entrasse em greve. Tudo a correr mal ao mesmo tempo por dez minutos. E arruina o que estava a ser uma bela experiência. O filme vai ser lembrado, sim, mas de preferência sem o final. Filmes Filmes 2024 FamaJekyll & Hydejuventude eternaMOTELx 2024Mulher forteNuno ReisTelevisãovelhice