Hacksaw Ridge (2016) Nuno Reis, 1 de Agosto de 202523 de Outubro de 2025 Com a regularidade que este filme passa na televisão dificilmente será uma novidade para alguém, mas aqui fica para a posteridade mais uma resenha. Isto é a história verídica de um dos vários heróis que cada guerra nós dá. Apenas um diferente de todos os outros. Desmond Doss, como muitos jovens americanos, alistou-se para a Segunda Guerra Mundial. Ele quer servir o seu país e sentir-se-ia um cobarde se não participasse no esforço de guerra. Um detalhe peculiar é que Doss é um fervoroso pacifista. Quer ir para a guerra, mas recusa-se a matar quem quer que seja. Inclusive a tocar numa arma. E isso é um grande problema pois entre superiores, camaradas e japoneses, não falta quem o queira matar. O filme começa com algum drama familiar, dando o contexto da família Doss e dos valores pelos quais Desmond se rege. Ele aprendeu desde pequeno o significado do confronto e prefere focar-se na ajuda ao próximo, para o qual tem um talento natural. Em seguida vemos como é o treino dos soldados, assim como a humilhação de quem tem integridade e se mantém fiel aos seus princípios. E depois vem o inferno. Nas primeiras duas partes, sólidas performances de Andrew Garfield e Hugo Weaving fazem o filme ser consistente. O treino sabe a pouco, mas é porque o prato principal vem a seguir. E com mais de duas horas de filme, não se poderiam alongar em tudo. De notar que apesar de ser um filme de guerra, com muita testorterona, ainda há duas actrizes com algum relevo. Rachel Griffiths como mãe e Teresa Palmer como a namorada, são o elo de Desmond à humanidade. Nunca vocaliza que quer voltar vivo – apenas pede a Deus que o ajude na sua missão – mas como elas lhe suplicam para voltar, terá de o fazer. Tudo o resto é o que já vimos inúmeras vezes. Homens anónimos a serem trucidados por metralhadoras. Exército de japoneses retratados quase como demónios sobrenaturais. Lança-chamas, bombas, granadas, cabeças perfuradas por uma bala e membros arrancados em explosões. Vivos e cadáveres completamente estropiados. Morte num planalto desolador. Nenhuma réstia de esperança. E o homem que não quer lutar, a tentar manter alguma humanidade e compaixão. Quando pensamos em guerra, pensamos em soldados. Pecisamos de quem lute. Mas há muito mais funções por trás. Normalmente pensamos logo na logística e inteligência. Mas mesmo para os homens (e mulheres) no terreno, é preciso mais. É preciso quem os treine antes de irem. Quem os lidere enquanto lá estão. E quem os mantenha vivos. Doss foi ainda mais além. Salvou vidas, claro, mas fê-los acreditar. Os americanos podiam estar a enfrentar demónios suicidas, mas tinham o seu próprio milagre. No fundo é tudo uma questão de estatísticas. Por muito sortudo que se seja, ninguém se consegue esquivar de todas as balas. O nosso Milhões foi um exemplo bem raro, mas tem agora ilustre companhia. Se a probabilidade de fazer um salvamento num cenário de guerra ativo fosse de 90%, o que Doss fez daria 0.04% hipóteses de escapar. Se fossem uns confortáveis 95%, teria 2.13%. Se isso não é um milagre, é o mais parecido que se pode pedir. O filme de Mel Gibson ao fim de meia hora consegue tornar-nos muito insensíveis à morte, mas nunca insensíveis a quem luta pelo próximo. As acções de um homem não fizeram com que ganhassem a guerra. Inspirou-os a lutar com mais bravura, o que pode ter causado mais mortes. Mas trouxe muitos homens para casa e isso é o mais valioso. Filmes Filmes 2016 Nuno Reis