Anon (2018) Nuno Reis, 6 de Julho de 20188 de Agosto de 2025 A premissa de “Freeze Frame” era que a gravação de cada momento da nossa vida pode ser o alibi perfeito. Roçava a paranóia. Em “The Final Cut” foi dado mais um passo: cada pessoa podia gravar a sua própria visão. Em “Anon” vamos um pouco mais além. Tudo o que toda a gente faz – toda a vida – não está só gravado, está integrado com tudo o resto. Aquilo que se receia que os óculos inteligentes possam vir a fazer, estaria a ser feito constantemente. Sal é um detective acostumado a esse mundo. Todos os crimes são fáceis quando se sabe onde está cada pessoa e se pode rebobinar tudo o que cada um viu. Até que lhe surge um conjunto de crimes diferentes. O que cada vítima tem como última visão é a perspectiva do assassino. Não se sabe quem nem porquê, mas esse tipo de hacking é preocupante. Só se fala de uma rapariga de cabelo castanho. Será preciso investigar à moda antiga. E com muito cuidado para não deixar pistas gravadas. Andrew Niccol era a pessoa certa para tratar deste tema. Argumentista de “The Truman Show”, argumentista e realizador de “Gattaca”, “S1m0ne”, “In Time” e “Good Kill”, sabe como nos fazer pensar na tecnologia. Sabe como criar mundos distópicos e como discutir prós e contras de diferentes avanços científicos. Com o estado de hiper-vigilância em que estamos a entrar, não tardará muito para estarmos todos ligados. A questão será como e com quem partilhamos os dados. Se serão para ter fotografias e vídeos de cada momento feliz, ou para o nosso perfil ser traçado com todos os detalhes. Essa total transparência pode simplificar muito a vida e trazer segurança, mas estamos prontos para perder ainda mais privacidade? O filme constrói rapidamente essa estranha sociedade. Com um ar moderno e cinzento, como se as pessoas tivessem deixado de se importar. A luta de Sal pela justiça é pouco convencional, mas tem fundamento. É um homem de causas de quem é fácil gostar. Ao seu lado está uma polícia muito presa às regras e a querer eliminar a anomalia. Do lado oposto uma mulher solitária a contornar as regras e a exercer o seu antigo direito ao anonimato e privacidade. É um confronto inteligente, a dependência da tecnologia é tal que a visão em tempo real é manipulada, as memórias são apagadas. As pessoas ficam impotentes e incapazes de viver. Aterrador. Clive Owen muito bem, num registo que transmite mais pelo olhar que pela voz. Amanda Seyfried eficaz, a conseguir estar presente mesmo quando não está. Ainda que seja um filme fácil de esquecer, a mensagem que passa é clara e permanecerá: a vida é mais do que uma máquina e a sociedade não pode ditar como vivemos. Filmes Filmes 2018 Nuno Reis