Aladdin (2019) Nuno Reis, 2 de Junho de 201929 de Outubro de 2025 O que não aprender com erros anteriores. É sabido que os estúdios de animação Disney atravessaram um período muito mau. O clássico de animação “Aladdin” fez parte do lote de filmes que salvou a empresa. Mas o filme em si fez história por outros motivos: foi a primeira vez que usaram a fama de um actor para uma personagem. Já vários actores profissionais tinham cedido a voz a animações, mas havia um nicho especializado e não dava fama excepto se fossem um Mel Blanc. Uma rápida pesquisa no Google coloca imediatamente depois deste senhor os nomes de Frank Welker, Tara Strong, Tom Kenny e Jim Cummings. Tenho bastante confiança que a maioria dos leitores não identifica nem a voz, nem sequer se lembra de ver os nomes nos créditos. É compreensível. A maioria das pessoas não sabe quem eram as vozes das personagens animadas ou sequer das dobragens até 1993. Angela Lansbury como Senhora Bule era o único grande nome em “Beauty and the Beast”. Eva Gabor foi a gata Duquesa. Eram todas personagens com vozes icónicas e perfeitas para o papel, mas o nome por si só não vendia bilhetes. Com Aladdin isso mudou. Robin Williams era a única pessoa capaz de dar vida ao génio e a Disney insistiu. O astro maior da década tinha uma simples condição: ele seria uma voz anónima como todos os anteriores. A Disney concordou, e fez o oposto. Começou imediatamente a promover o filme com “Robin Williams como Génio”. Isso fez com que Williams se recusasse a trabalhar com a Disney, mas, diz a lenda que após receber um Picasso como pedido de desculpas, acabou por fazer a voz nas sequelas. E tudo mudou. Desde então a Disney e outros estúdios perceberam o filão que era usarem nomes consagrados como vozes. Imediatamente em “The Lion King” foi Matthew Broderick como Simba, James Earl Jones como Mufasa, Jeremy Irons como Scar e Rowan Atkinson como Rafiki. Até as hienas eram Whoopi Goldberg, Cheech Marin e Jim Cunnings (este sim, uma voz profissional). Em Pocahontas, Mel Gibson deu voz a John Smith, Linda Hunt a Willow, Christian Bale e Billy Connolly como ingleses… Para o filme do Corcunda, Tom Hulce para protagonista, Demi Moore como Esmeralda, Kevin Kline como Capitão e Jason Alexander como gárgula. Em “Hercules” papéis secundários entregues a Danny DeVito, James Woods, Rip Torn… Os nomes sonantes tinham vindo para ficar. Então onde está a lição? De volta a Aladdin, agora em imagem real. Teoricamente o foco seria em encontrar o Aladino perfeito. Errado. Primeiro foram encontrar o génio. E a escolha de Will Smith era inquestionável. Popular. Divertido. Com talento musical. E um nome fortíssimo para atrair multidões. Depois começou a busca entre milhares para encontrar Aladino e Jasmine. Finalmente os escolhidos foram Mena Massoud, um relativo desconhecido, e Naomi Scott, uma estrela no universo Disney com alguma fama. Tendo eu já comprado bilhetes de cinema, DVDs e banda sonoras por causa da actriz (até estou nos agradecimentos de uma curta protagonizada por ela e já a entrevistei) achei uma excelente escolha. Mas concordo que seria preciso um nome enorme. De notar que também nos secundários podemos encontrar Nasim Pedrad, numa nova personagem para alívio cómico, e Alan Tudik como Iago. Aindaa assim Will Smith seria o epicentro do marketing, tal como Williams tinha sido antes dele. O problema é que não foi só no marketing. Toda a narrativa foi reformulada para dar um maior destaque ao génio. Inclusivamente, cortando as pernas a uma possível sequela. Tiveram sorte, mas é um risco. Foi imprevisível a escolha de Guy Ritchie, mas o produto final é muito competente. Respeita a história original q.b., dando um protagonismo maior a Jasmine (incluindo uma música impossível de cantar pelos comuns mortais) e joga muito bem com as cenas de acção, a comédia, e algumas histórias paralelas. É uma pena que não se veja cenas memoráveis com as personagens que crescemos a adorar na série animada (Abu, Iago e Tapete), mas não se sai mal como filme épico e tem tudo para impressionar o público infantil a que se destina: um herói carismático, uma princesa confiante, alguns sustos valentes e a ocasional graçola. Decerto vai trazer novos espectadores para a animação clássica, mas não é propriamente um filme que convide a visionamentos repetidos. Filmes Filmes 2019 Conto de FadasMagiaMulher forteNuno ReisRemake