West Side Story (2021) Nuno Reis, 15 de Janeiro de 202225 de Outubro de 2025 Cinquenta anos depois, West Side Story está de volta ao cinema! O reinado Trump, a perseguição contínua a imigrantes ilegais e rumores de uma caravana de bad hombres voltaram a dar relevância a este musical. Foi preciso esperar uma pandemia pelo lançamento, mas cá está ele. Fico sempre de pé atrás quando vejo alguém a mudar de género, mas quem se submete a um comparação com Robert Wise (também com um forte passado no cinema fantástico), tem de saber o que faz. As minhas expectativas eram mais que muitas. Se o filme de 1961 não me encheu as medidas, Spielberg não costuma desiludir. Em especial depois de ter adaptado o impossível “Ready Player One” e homenageado Kubrick de forma impecável. Aos poucos fui sendo tranquilizado pelas escolhas. Ansel Elgort tinha dotes comprovados em música e dança (“Baby Driver“) e a participação de Rita Moreno depois de uma carreira bem sucedida em que não precisava disto, era um aval do elenco original e da comunidade latina. Um choque logo para começar. Os créditos e a icónica apresentação dos gangues não são nada semelhantes ao original. A música está lá, mas os cenários, os movimentos, a cena, tem tudo algo de novo. Parece um filme diferente até chegar Krupke e nos recordar do passado. Aos poucos notam-se que as alterações foram mínimas – em termos narrativos e diálogos/letras parece mais próximo da peça que do filme – e não foi uma modernização para os nossos dias. Os problemas de hoje são iguais aos de há 65 anos – crise económica, confrontos raciais, gentrificação, juventude desamparada – pelo que a mesma história pode ter lugar no passado, onde custa menos admitir que há problemas. Há mudanças relevantes em relação ao original. Tony está em liberdade condicional e afastado dos Jets por um evento do seu passado que ainda lhe dá pesadelos. Na loja do Doc onde ainda ouvimos a única voz da razão num mundo de hormonas e ânimos exaltados é a viúva deste, a porto-riquenha Valentina (Rita Moreno) que percebe na primeira pessoa ambos os lados da questão. O outro grande ponto a favor é que finalmente uma das minhas principais críticas está sanada. Nâo se limitaram tanto nos cenários utilizados. O cinema tem mais liberdade que o teatro e usam-na parcamente para também não destruir a artificialidade e sensação de mundo privado que – agora percebo e admito – contribui para a narrativa. Mas também há pontos contra! Por exemplo, o elenco não convence. Tiff e Bernardo (este melhor explicado que em 1961) são piores que os anteriores. E Rachel Zegler quando primeiro a vemos não é nenhuma Natalie Wood. Só Josh Andrés Rivera como Chino suscita alguma curiosidade em porque não é tão irrelevante como antes. Se não fosse a parte musical, o filme seria uma desgraça. A nova cena do baile é pior que o original, mas quanto olhamos para as músicas que se seguem, tudo muda. Diria que o primeiro sinal de mudança é “Gee, Officer Krupke”. Tanto a interpretação musical como o novo cenário são uma lufada de ar fresco. A partir daí, o filme ganha uma oportunidade de inovar que aguenta. Anton e Maria têm tempo para se conhecerem melhor – não é só uma dança e uma conversa à varanda que os fazem perderem-se de amores. Percebemos melhor as atitudes dele, na mistura impossível entre alma partida e reputação de rebelde, e vemos que ela não é uma criança inocente, mas a segunda personagem mais madura e consciente da realidade da história. Temos uma nova cena onde a juventude e leviandade dos Jets é comprovada. A batalha é ligeiramente mais realista. E a qualidade musical muito superior à de outrora tem o apogeu quando Rita Moreno rouba o protagonismo que Ariana DeBose estava a conseguir com a personagem que outrora lhe pertenceu. Custou a chegar lá, mas no final temos cerca de meia hora de grande cinema. Após a batalha, Anybodys, que foi quase ignorado no filme todo, finalmente tem tempo para se afirmar. Algumas personsagens femininas (Graziella) têm direito a usar a voz (que no primeiro filme era essencialmente pré-batalha e penso que nem tinha direito a nome), DeBose aguenta a cena chave, Elgort faz o que lhe competia e Zegler é simplesmente brilhante. Deixo uma nota que um dos sinais dos tempos é a imensamente maior utilização de castelhano nos diálogos. Enquanto na época era preciso tornar os diálogos perceptíveis e isso significava colocar palavras espanholas em diálogos em inglês, no século XXI já os latinos se misturaram suficientemente na sociedade americana para termos diálogos inteiros em castelhano sem que o filme perca ritmo. Engraçado é que mesmo sendo 30% da população de Nova Iorque continuam a lutar pelo seu lugar, tal como as verdadeiras minorias. Filmes Filmes 2021 Conflito RacialGanguesImigraçãoNuno ReisRemakeRomeu e Julieta