The Beach (2000) Nuno Reis, 21 de Agosto de 202525 de Outubro de 2025 Existem filmes que definem uma época e que marcam os espectadores. Filmes que fazem abrir os olhos e mudam por completo a nossa forma de ver o mundo. E alguns que fazem isso mesmo, se vistos na idade certa. Quando Danny Boyle nos trouxe “Transpotting”, marcou muita gente. Foi um grito de protesto de uma juventude escocesa que era marginalizada pela sociedade. Um filme que deixou a sua marca. E cuja famosa “Choose Life” ainda perdura. Na altura as drogas tinham um impacto na sociedade diferente aos dias de hoje, mas o visionamento de uma camada tão marginalizada que pode ainda existir – sendo apenas desconhecida – continua a ter impacto. Pouco depois Boyle trouxe-nos um filme que parecia completamente diferente. O marketing focou-se em Di Caprio e não adiantou nada mais. Parecia um filme para adolescentes. A verdade é que estávamos perante outro projecto com exactamente a mesma intenção e impacto do antecessor. Só que focado numa comunidade diferente. Estávamos numa era em que andar de avião se começava a normalizar. Antes das companhias low-costs, mas também antes do 11 de Setembro. Viajar era sonhar. A Tailândia era um paraíso distante e ainda sem maremotos para lançar a semente da incerteza. Jovens sedentos de aventuras partiam para viagens nesse oriente ainda envolto em mistério. Richard é o nosso narrador. Um jovem americano como muitos outros que parte em busca de uma aventura diferente, única, e percebe que todos vão aos mesmos sítios e fazem as mesmas coisas. E pior, esperam ter os mesmos confortos de casa. Estão a conspurcar e a banalizar o paraíso. Até que um vizinho e hotel completamente alucinado lhe fala de uma ilha secreta. Um local não só longe dos turistas, como longe do homem. E a praia é um autêntico paraíso de onde não se quer sair. Até há um mapa. Impulsivo, convida os vizinhos franceses e partem os três em busca de algo demasiado bom para ser verdade. As primeiras resistências começam logo certamente com “este filme é para adolescentes”. Errado. A sua mensagem imediata é para os mais jovens, cheios de hormonas e vontade de viajar e fazer loucuras. Mas tem mensagens e reflexões para todos os públicos. A segunda camada enquanto se visiona será o clássico de todos os boatos sobre um local os zombies não chegaram: “se era assim tão bom, porque saíram para dizer que existia?”. O mesmo se passa com esta ilha. Se é perfeita e se tem tudo o que se precisa, podiam lá ficar para sempre, porque sair? E se é secreta, porquê espalhar a localização com estranhos? Quem for fã do terror terá certamente várias conjecturas interessantes adequadas à saga “Hostel”. A melhor forma de apanhar uma vítima, é convencê-la a ir de livre vontade até ao local desejado. Todavia, “The Beach” é muito mais do que isso. É sobre descobrir os próprios limites. Sobre desafiar a morte. Sobre encontrar um lugar em que se seja feliz. A viagem até à ilha é apenas para conhecermos as personagens. Depois da chegada ao areal, vai começar um novo filme. Sem entrar em spoilers para não arruinar a experiência de primeiros visionamentos, é toda uma nova jornada. Nova personagens e situações, filosofias de vida, surpresas e decisões. Vamos ter novos momentos de alucinação, de drama, de inocência e de horror, mas tudo com enorme mestria. O jovem elenco revela as suas competências e torna outra obra-prima de Alex Garland num filme intemporal. Recomendado a todos os jovens que pensem fazer interrail, gap year e demais experiências do género. Também recomendado a quem se sentir perdido num sentido mais metafórico e quiser explorar o significado de estar em comunidade. E recomendado a apreciadores de Cinema. O filme pode parecer datado em alguns aspectos, mas confirmo que em 2025 continua a fazer todo o sentido. Filmes Filmes 2000 comunidadeDrogasfériasgap yearNuno Reissegredo