The Rule of Jenny Pen Nuno Reis, 13 de Abril de 202513 de Janeiro de 2026 Uma das coisas mais assustadoras da vida é a velhice. Porque na visão optimista é um momento de descanso. Acabou-se o trabalho, acabou-se o aturar pessoas, acabou-se o sair de casa com mau tempo… Mas isso é a reforma, não é a velhice. A velhice é estar com várias dores, estar muito medicado, não ter capacidade física ou mental para o que se quer fazer, e ver as pessoas que nos importam a morrer uma por uma. Mas o pior é aquilo que se chama “segunda infância”. Quando voltamos a ser carecas, desdentados, incapazes de comer sozinhos e a precisar de fralda 24 horas por dia. Se a mente ainda estiver capaz, é quando se vai abaixo. Neste filme vamos ver isso acontecer de forme súbita. Stefan Mortensen é um juiz que, imponente, exerce a sua autoridade da sala de audiências. Até que um AVC o incapacita e vai viver – temporariamente, dizem eles – para um lar com assistência. Incapaz de usar as pernas, vai ter de aturar um lote de pré-cadáveres que o aborrecem de morte. O único assim para o espevitado é Dave Crealy, o bully de serviço. Obriga os aterrorizados velhinhos a prestarem vassalagem à sua boneca, Jenny Pen. Mortensen, incapaz de reconhecer que agora é impotente e está sozinho, vai fazer frente à personagem mais poderosa do recinto. Entre os vários filmes sobre a velhice (“Arrugas”, “Going in Style”, “Bubba Ho-Tep” e muitos outros), normalmente o tema é a velhice, por vezes disfarçada com uma história que traga emoção e alguma alegria. “Father”tentou seguir o caminho oposto e mostrar só o pior. Pois aqui a velhice é como que o segundo vilão. Acima de tudo é um filme de terror sobre a “boneca possuída” que na verdade é só uma pessoa cruel. Mas tudo na atmosfera é de terror: os sons estranhos que quebram o silêncio da noite; a medicação que, se trocada, mata; os vultos que circulam e espreitam. E em segundo plano a velhice, a principal assassina no edifício. Não é um filme isento de erros. Mas tem interpretações fabulosas de dois senhores que, espero, estão bem longe de se reformarem e traz um tema que é muito difícil com um disfarce menos desagradável. Consegue manter o mistério e um ambiente sufocante do início ao fim. E entretanto, as convicções de cada espectador tal como as de Mortensen vão sendo atacadas aos poucos. Espero que incentive o diálogo e principalmente que inspire a que se disfrute da vida enquanto jovem. Porque no fim, é ficar quietinho à espera que os dedos gélidos da morte nos levem para um jogo de xadrez que não temos como ganhar. Filmes Filmes 2024 bonecosNuno Reisvelhice