The Luckiest Man in America Nuno Reis, 29 de Setembro de 202519 de Janeiro de 2026 Ou como fazer a própria sorte Alguns filmes surpreendem por existirem. Outros, pela distribuição que fazem. De alguma forma “The Luckiest Man in America” tem estreia prevista para Portugal e isso surpreende porque não consigo imaginar o público alvo. É sobre uma pessoa aparentemente banal. É sobre um concurso televisivo de há muitos anos, que passava no horário matinal. Não temos nenhum contexto do que vai ser e os trailers devem ser evitados. Então, porque pensaram que isto deveria ser mostrado fora do seu país? Porque tem muito mais do que aparenta. Existe casting para tudo, incluindo concursos televisivos. Através duma série de entrevistas e avaliação do passado, decidem se a pessoa pode ficar perante as câmaras. Quando chamam um nome na sala de espera e ninguém se mexe, o indivíduo estranho de pé junto à porta usa essa oportunidade. A entrevista corre mal e quando descobrem a fraude, correm-no para fora. Mas o produtor vê algo em Michael e decide dar-lhe uma nova oportunidade. E assim começa a participação sensação que quarenta anos depois ainda tem direito a filme de tão poderosa que foi. O filme parecia ser independente. Apesar dos váriso sucessso recentes, Paul Walter Hauser nem é uma estrela grande o suficiente para promover o filme sozinho, nem encaixa no estereótipo do galã. E a participação de David Strathairn como produtor parece pequena. Com o tempo vemos que a conversa é outra. Hauser era dos poucos actores com perfil para interpretar este anti-herói, Straithairn acaba por estar lá só por se adequar em termos de idade, e temos outros nomes a marcar presença. Walton Goggins é o apresentador, Maisie Williams uma assistente, Shaunette Renée Wilson tem um pequeno papel e Johnny Knowville mal se nota que entra no filme. O filme podia ter ido mais além no casting. Só não conseguiria o mesmo impacto sem apostar em pessoas assim: normais. É disso que se trata. De como um homem comum pode desafiar as probabilidades. Portanto vão usar pessoas normais a fazer de pessoas normais. A narrativa foi muito bem criada, pois o que devia ser apenas alguma horas tem intriga para todo um filme. Isso também porque somos envolvidos na história apenas na perspectiva dos estúdios. Michael é um mistério também para nós. Primeiro, a mentira sobre a identidade. Depois a urgência do telefonema. Várias investigações apressadas sobre quem ele é numa era em que estar online significava ter um telefone fixo e um fax. E o grande deslumbramento, a sorte que Michael tem contra todas as probabilidades. Por um lado, queremos que ele ganhe. Por outro, queremos saber quem ele é, se é merecedor. Porque os concursos devem ajudar alguém como nós, não quem já tem muito ou quem tira aos outros. Tal como para os estúdios, enquanto perde não é relevante. Mero entretenimento anónimo. Quando ganha, mesmo que não seja dinheiro nosso, exigimos saber porquê. E Chuck vai fazer esse jogo muito bem. Ele é quem mais sabe sobre o estúdio e sobre o candidato. Ele vai tomar em mãos o destino de várias carreiras. No fim, sabemos que em Chuck podemos confiar porque ele é o homem comum e ele tem a informação. Torna-se o nosso herói anónimo. Já Michael, tanto pode ser um herói como um vilão, dependendo de quem conta a história. Mas deixou a sua marca. O filme começa lento e misterioso, mas depressa nos envolve. A grande performance de Hauser é o trunfo, mas a edição ajuda e muito. O espaço confinado do estúdio, aliado ao labirintico exterior, fazem a sua parte no combate mental que ambos os lados jogam. E a sua curta duração (um minuto acima de hora e meia) consegue capturar para a eternidade uma curiosidade que podia ter ficado esquecida. É a magia da Televisão de outrora trazida para o Cinema de hoje. Pode não ser apelativo para todas as gerações – alguém curioso sobre quem ganhou mais dinheiro na Roda da Sorte? – mas é uma história humana que merecia ser contada. Não sobre sorte, mas sobre atenção, dedicação e mérito. Filmes Filmes 2025 concurso televisivoestatísticaNuno Reisplano inteligente