Gran Turismo Nuno Reis, 16 de Agosto de 202318 de Outubro de 2025 Algumas lendas nascem numa cadeira confortável Para contexto, o único jogo de corridas que tive veio de oferta com a consola e foi nos anos 90, pelo que não vale a pena entrar em mais detalhes para mostrar como ignoro o género. Conhecia a fama de GTe já o experimentei há 20 anos, mas, mesmo sendo um simulador de condução e não um jogo de corridas, não era o meu estilo. Não sei como acabei a ver este filme. Talvez por falta de opções, pois mesmo ser de Neil Blomkamp não tem sido grande argumento nos últimos anos. Portanto, entrei para “Gran Turismo” sem expectativas ou interesse. Não esperava um “Rush”. Para mim o deplorável “Fast Track: No Limits” ou talvez “Need For Speed” eram as únicas comparações. A história acompanha Jann, um jovem jogador que venera o jogo GT, tendo passado milhares de horas ao volante do simulador. O pai quer que ele arranje passatempos mais reais, como jogar futebol como o irmão, ou que arranje um trabalho, mas Jann só quer jogar. Até que alguém no marketing da Nissan tem uma ideia mirabolante: e se o próximo condutor profissional vier da comunidade de jogadores? É a oportunidade de Jann provar ao pai, ao mundo, e a si mesmo, que os sonhos se podem tornar realidade. O discurso de Danny Moore (Orlando Bloom) na abertura explica bem ao que o filme vem. Se existem milhões de jogadores que adoram o videojogo, com a estratégia cerca eles podem tornar esses jogadores em fãs da marca. Como tantas outras adaptações, este filme tenta capitalizar nos mesmos fãs para vender bilhetes. Pelo menos é honesto quanto a isso. O filme começa imediatamente por se inspirar no visual do jogo. Não o suficiente para ser uma réplica sem identidade própria, mas o suficiente para os jogadores se sentirem familiarizados com o que se passa. São os planos, as informações no ecrã… tudo aquilo que um filme podia decidir fazer, optaram por pegar no já comprovado. O seu valor está nas três personagens principais que interagem. Jann Mardenborough (Archie Madekwe) é o atleta deslumbrado por aquele mundo. Tem umas noções do que é, mas não está preparado para a realidade. Jack Salter (David Harbour) é o piloto tornado engenheiro. Tem uma vida de experiência, muita amargura, mas sabe que o seu dever está em apoiar a equipa e formar a próxima geração. Já Danny, é marketing. Ele preocupa-se com a imagem que passam e não se importa de contornar um poucos as regras, pisar alguns calos e destruir almas no processo. Madekwe tem um bom papel e é a alma do filme. Não se vai afirmar com este filme, mas começa a ter uma carreira que desperta a curiosidade. Harbour é o coração. Mesmo estando parecido com algumas personagens que já interpretou, é a realidade crua. E mesmo sendo distante, é o pouco calor humano que Jann tem na equipa. Fenomenal. Sobre Danny, digamos que os meus papéis favoritos de Bloom são como vilão. Aqui merecia mais tempo de ecrã para explorar a faceta interesseira. O filme durante a primeira hora e vinte porta-se muito bem dentro dos limites do género. A única crítica é que se foca no confronto entre pilotos – meros jogos psicológicos – como se isso afectasse os pilotos amadores. Sendo jogadores, estão acostumados a comentários bem piores e mesmo que sejam afectados, teriam uma resposta na ponta da língua. Aqui insinuam que um jogador de GT não é como os outros jogadores. Pode-lhes fazer bem ao orgulho, mas não é a melhor visão do filme. Nesse momento tem uma quebra importante para a narrativa. Foi como abrandar na curva. E ao acelerar para recuperar, estupidifica um pouco. Tenta ser lamechas, inspirador, ter adrenalina… demasiados objectivos ao mesmo tempo e concentrados em poucos minutos. Continua a justificar todos os efeitos digitais que usa, mas a história precisava de mais atenção. Como penúltima nota, deve ser visto em cinema ou quando os vizinhos estiverem para fora pois o som é um elemento fulcral de tudo isto. Quase – quase – me fez gostar de corridas. E para o final, a grande revelação. Quase tudo isto foi real. Existe um Jann por aí a fazer corridas e a calar os críticos há uma década. Filmes Filmes 2023 Nuno Reis