New Group Nuno Reis, 19 de Setembro de 202524 de Outubro de 2025 O ser humano é um ser que vive em comunidade, ou um carneiro a seguir o rebalho? Este filme foi quase o último presente no MOTELx a ser comentado neste espaço por um motivo muito simples: não há palavras. Uma pequena pesquisa diz que posso ser o segundo crítico do mundo ocidental a fazer um artigo completo sobre a obra. Isso é alguma pressão. No que é apenas a segunda longa para Yûta Shimotsu – tendo a primeira sido “Best Wishes to All” – vamos mergulhar no universo estudantil japonês. Ai é uma estudante quase como muitas outras. A sua grande diferença é que não se conforma. A escola quer acabar com individualismos como rasgos de criatividade e opiniões, tornando cada estudante em robots sem cérebro. A chegada de Yu, um estudante que viveu no estrangeiro e estudou por outros métodos, não chega para abalar a escola, mas faz Ai pensar que não estará errada. Até que um dia, algo estranho acontece no pátio. Um aluno coloca-se imóvel no meio do vazio. Incapaz de o demover ou retirar de vista, o director toma a única decisão possível para manter a uniformidade. Devem todos imitá-lo. Isso vai desencadear uma transformação à escala nacional a que apenas alguns parecem imunes. O que parecia um filme inócuo sobre estudantes onde o bullying era o tema forte, vai gradualmente e discretamente evoluindo para uma crítica ao sistema de ensino. Quase como um grito de alerta de estarem a destruir uma geração. A imposição de regras para as coisas mais simples da vida – que inicialmente parecia cómico – cresce para o ponto em que os apóstatas que não se homogenizem são simplesmente eliminados. E de forma bem menos subtil, aqueles corredores mal iluminados revelam alguns monstros humanos que causam arrepios. Todavia, a intenção não era causar jump scares. Era plantar uma ideia. Algo que germine lentamente para que cada um de nós, e principalmente os mais jovens, ao longo da vida, assuma a responsabilidade da sua própria mente e deixe o conformismo para os outros. Sim, tem cenas tão exageradas que se torna ridículo. Tem efeitos especiais para esquecer. Mas o terror funciona e a ideia principal fica lá. Tem muitas semelhanças a “Suicide Club” sobre os exageros a que um indivíduo chega por razões aparentemente inexplicáveis, e faz pensar nas experiências de Asch e Migram (mais de Asch) em meados do século passado. Foi muito curioso como pensaram na pirâmide para representar o convencional (estrutura organizacional padronizada, imobilidade e posições bem definidas) e na esfera para o indivíduo (liberdade de movimentos, posições vão sendo alteradas). E ainda que o filme e todos esses detalhes sejam esquecidos em pouco tempo por quem não estiver acostumado às excentricidades japonesas, a semente fica. A individualidade tem de ser preservada e é preciso demolir os padrões. Filmes Filmes 2025 EscolaMOTELx 2025Nuno Reis