William Tell Nuno Reis, 10 de Setembro de 202511 de Janeiro de 2026 Para já, esta é a melhor surpresa do ano. Todos conhecem as lendas do arqueiro Robin Hood e do besteiro Wilhelm Tell. Todavia, seja porque há uma maior visibilidade da cultura inglesa ou porque as primeiras adaptações souberam colocá-lo no imaginário colectivo, quando se fala de filmes só o primeiro tem alguma atenção. São raros os filmes sobre o icónico suíço e a maçã.Podemso encontrar referência desde os tempso de Méliès, mas nada que tenha vingado. Quando soube de um filme sobre ele, fiquei curioso. Mesmo ao saber que tinha um pouco mais de duas horas e era baseado numa peça de teatro com dois séculos, a curiosidade ganhou ao bom senso. Não havendo muito material informativo, cheguei a recear que fosse falado em alemão. Apesar de ter um elenco europeu de variadas origens, é todo em inglês excepto o ocasional pergaminho em latim. Para contexto, isto tem lugar no século XIV, quando a Idade das Trevas reinava sobre a Europa. A Suíça era um conjunto de cantões com pastores e a Áustria já sob domínio dos Habsburgo estava em expansão por via da conquista militar. O vizinho indefeso foi o alvo ideal. Essa ocupação era ainda recente e o ocasional camponês descontente reagia ao opressor, mas sem grande resultado. Subitamente uma sucessão de eventos escalou até não ser possível aguentar mais. Era chegado o momento de independência ou morte. E Tell, um cruzado, é mesmo quem eles precisam. O realizador tem o mérito de contar a história sem se deixar deslumbrar pelas estrelas (Ben Kingsley e Jonathan Pryce, por exemplo) que estão em papéis menores, deixando os talentos mais desconhecidos terem o seu momento. E aqui entre a imponência de Claes Bang, a raiva de Sam Keeley, a vilania de Connor Swindells, a ousadia de Ellie Bamber, e a presença de Jonah Hauer-King (tão melhor desde há umas semanas em “I Know What You Did Last Summer”) são fenomenais. Mesmo Amar Chadha-Patel e Golshifteh Farahani, que destoam dos restantes pela cor de pele, convencem pela sua entrega à causa suíça. São aliás os maiores defensores do movimento. No arranque o filme tem uns diálogos em inglês clássico que me preocuparam. Lembro-me de ver “MacBeth” e “The Tempest” que pegaram em Shakespeare sem grande adaptação no formato e me arrepender. Mas aqui isso é passageiro. Há várias cenas com uma linguagem mais cuidada, mas nada de exagerado. O filme desenrola-se de forma cativante, vai apresentando várias personagens e dá todo o contexto necessário. É até surpreendente como uma relativamente pequena produção conseguiu bons actores, bons cenários (muitos castelos), guarda-roupa, efeitos especiais…. Em todo o filme há apenas uma cena em que o enquadramento revela limitações. É uma luta num barco no meio de uma tempestade, em que a câmara se mantém demasiado próxima provavelmente para poupar no cenário envolvente. Tudo o resto, seja no interior de uma carruagem, no pátio de um castelo, ou nas colinas, é filmado como merece. O simples facto de não se ter deixado seduzir pela cena da maçã como epicentro da narrativa é por si só digno de nota. Há quem diga que o final convidar à sequela foi despropositado, mas a verdade é que as guerras normalmente continuam por vários anos e não há um momento definitivo em que fiquem resolvidas. A haver uma decisão infeliz no filme é a banda sonora imediatamente associada a “Game of Thrones”. Não haveria muito como fugir, mas ainda é demasiado cedo. É um filme mais do que competente, que se vê com gosto e, até prova em contrário, a melhor adaptação que este herói popular alguma vez teve. Filmes Filmes 2025 BestafamíliaNuno ReisRebelião