Sombras Nuno Reis, 14 de Setembro de 202526 de Dezembro de 2025 Todos os anos o MOTELx apresenta uma dezena de curtas nacionais e o maior prémio monetário do país para a categoria. Todos os anos metade delas são um barrete, É importante ter esse espaço, mas quando definimos um número mínimo, é fácil deixar entrar alguns sonhadores. Pessoas que não tiveram o orçamento ou a capacidade para fazer melhor. Nas longas, isso não acontece tanto. Portugal não tem dimensão para produção regular de longas de terror. E portanto, não deixei de ficar surpreendido por termos duas longas a competir este ano. Jorge Cramez já é um nome conhecido na indústria e visita habitual do festival, pelo que me juntei aos vários curiosos que quiseram saber o que nos trazia. A maior surpresa foi Victoria Guerra. A estrela mais ocupada da indústria nacional na última década, tem dado uma perninha no terror com “O Corpo Aberto“, “Os Demónios do Meu Avô” e agora “Sombras“. Pode ter sido opção pessoal, mas gosto de acreditar que seja o terror a ganhar um prestígio que não tinha. Pedro Lacerda também é um homem muito ocupado (este ano entrou em três filmes, quatro séries e ainda fez teatro) e tem uma enorme presença. Já não me lembrava do seu último papel de destaque, mas aqui compensa pela espera. Já Catarina Machado foi o melhor jovem talento que vi este ano, e até a conversa em palco mostrava potencial. Mas vamos ao que importa. “Sombras” é sobre um casal com uma vida pacata no campo. Passeios agradáveis, trabalho sem stress, passatempos inócuos. Tudo corre bem a Marta e Jaime. Um dia o vizinho pede-lhes para ficarem com a filha por uma noite pois ele terá de se ausentar e não tem mais ninguém por perto. Os dias com a pequena intrusa correm bem, mas as noites são um problema. Algo muito perigoso ronda a casa e não são mosquitos. O que procura a criatura? O terror é um elemento menor da história. Aqui as verdadeiras sombras são os segredos que as personagens não partilham. As pequenas coisas que se tornam grandes, se vão acumulando e sabotando relações. Os diálogos ricos incluem tudo o que é preciso nas entrelinhas e as interpretações de enorme qualidade fazem este pequeno filme parecer enorme. Também a fotografia lida bem com todos os detalhes exigidos a um título que nos faz pensar em luzes e sombras, e a edição está soberba. Tinha tudo para ser um grande filme. A única falha imperdoável é um buraco no argumento que não explica a ausência num período tão específico, mas não se pode revelar mais sem spoilar. Recomendado a quem está a começar uma vida a dois, a pensar numa vida a três, a pensar em mudar-se ou qualquer outra decisão disruptiva na vida como conhece. O diálogo e a honestidade desde o início são fundamentais. Filmes Filmes 2025 famíliaGravidezLobisomemMOTELx 2025Nuno Reis