Cândido Nuno Reis, 12 de Maio de 202424 de Setembro de 2025 Chamar a um filme apenas “Cândido” não é muito esclaredor. Juntar a palavra futebol faz com que a pessoa tema seja óbvia, pois esse nome tem um dono que todo o país facilmente reconhecerá. Fazer trocadilhos com “o espião que veio do frio” para “o espião que veio do futebol”… Deve ter sido muito divertido na sala de reunião, mas trazê-lo a público faz com que se pense que vai ter muita espionagem, muito futebol, e até comédia. Nada disso. Pegam em fragmentos usuais na cobertura da vida em Portugal durante o Estado Novo, referem o futebol por ser um tema incontornável, e acabou. Nada de novo. Nada de apelativo. Não há uma trama consistente para filme, sendo mais próximo do formato televisivo, com picos a espaços regulares. A espionagem nacional que podia ser um tema fascinante (basta recordar “Glória”) é deixada em segundo plano. Aqui os ingleses é que estão a fazer a espionagem. Os portugueses são apenas moços de recados, peões num jogo que não compreendem e onde todos mentem e exageram para se fazerem importantes. Uma falha óbvia é que o filme se foca nuns meses específicos de uma pessoa cujas carreiras mereciam muito mais. Cândido Oliveira, além de estar envolvido em espionagem, tinha três empregos de prestígio. Era uma pessoa muito ocupada. Neste argumento nada disso importa. Referem essa polivalência como contexto, mas não homenageiam a vida e obra. Chegamos ao fim e sobre ele só sabemos que era um especialista em fazer negócios fracassarem, e que se dava muito bem com as vizinhas. Aliás, com toda a gente pois todos o avisam para ter cuidado. Mas ele simplesmente não consegue ficar parado. Tem de ajudar. E nós, temos de esperar pelo genérico para saber um bocadinho mais sobre o que o tornou famoso. Tão famoso que a Super Taça de futebol adoptou o seu nome. Quanto ao elenco, cheio de caras habituais, estão normais. Tomás Alves conseguiria aguentar um filme centrado em si, mas tem uma careca falsa que o torna difícil de levar a sério. Teresa Tavares está igual a si mesma, numa personagem quase inexplicável em porque aparece de tão mal aproveitada foi. Jorge Corrula tem momentos bons e poderia estar mais presente. Carloto Cotta como chefe da PVDE é convincente tanto nas frases casuais, como nos jogos mentais e nas explosões controladas. No entanto, temos de ignorar todas as personagens reais pois são maltratadas. É muito mais convincente uma Margarida Moreira ou Mariana Monteiro. Presentes sem a pressão de entregar uma performance fiel a alguém que já foi esquecido, do que todos aqueles nomes familiares que não sabemos bem quem foram e continuamos sem saber. Não é um filme de espionagem merecedor desse carimbo. Não é uma biografia decente. É um filme sobre como era viver no Estado Novo e o pouco que se podia fazer para tentar sobreviver – e ainda ajudar o país – sem ser acusado de traição. Vê-se num domingo à tarde na televisão, e esquece-se logo a seguir. Filmes Filmes 2024 Nuno Reis