Dogman (2023) Nuno Reis, 20 de Janeiro de 202415 de Outubro de 2025 Entrar num filme sem saber ao que se vai é uma roleta russa. Por um lado, pode ser uma enorme desilusão, completamente desajustado do que se gosta de ver. Por outro, podemos ser surpreendidos com algo inesperado, único, e arrebatador que as palavras não fariam homenagem. “Dogman” é um dos raros casos em que as campanhas para promoção do filme só o prejudicam. Alienariam muita gente com base nos temas falados. O que se pode dizer é que é sobre um homem que foi criado num família sem amor. Vamos conhecer Doug já adulto. Detido numa operação policial de rotina, é interrogado por uma psiquiatra que quer perceber a personagem à frente dela. O que vai ouvir é um conto de horror e compaixão, sofrimento atroz e amor incondicional. Uma pessoa que teve tudo de mau na vida, e no entanto encontrou um propósito, uma família e, à sua maneira particular, se tornou um membro de valor para a sociedade. Pode ser um marginal e até criminoso, mas vai conseguir simpatia. Em pequeno, Doug via cães serem maltratados e sabia que era errado. Até que um dia, foi trancado com esses cães de forma definitiva. Aí ficou com a certeza que preferia os animais às pessoas e começou uma espiral em que a sua humanidade era definida não pelos humanos que conhecia, mas pelos cães que o rodeavam. Assim que escapou, começou a procurar o seu próprio caminho. Rejeitado por quase todas as pessoas, amado incondicionalmente pelos cães. Penso que em nenhum momento do filme se referem a ele como “dogman”, mas o título é óbvio. Podemos simplificar e dizer que é muito semelhante ao que Luc Besson nos trouxe em “Léon”. Um criminoso impiedoso que é capaz de amar. Mas aqui a temática é diferente. É sobre uma infância que não dá alternativas, uma vida adulta sem opções. Nem no crime tinha hipóteses! Tudo o levaria para o suicídio. Uma temática muito pesada e que poderia dar filmes pessimistas. Para balançar isso tem a parte canina. Parece quase ridicula, mas aos poucos ganha sentido. Os cães são inteligentes quando querem. Estes apenas fazem uns truques um pouco fora do comum. Mesmo quem não for uma dog person vai reconhecer algum mérito nestas criaturas. E a grande surpresa será artística. É melhor não dizer demasiado, mas os intervalos para teatro e música que o filme traz, ajudam a quebrar a depressão e a vislumbrar a humanidade escondida em Douglas. O filme começa demasiado estranho e pesado. Mesmo sem muito sangue, vai roçar os limites da violência que se suporta. É capaz de assustar muita gente para fora da sala. Mas passados os primeiros minutos, estamos perante um filme poderoso que deve ser visto várias vezes. Filmes Filmes 2023 Nuno Reis