Molt Lluny Nuno Reis, 17 de Outubro de 202523 de Outubro de 2025 Todos os anos milhares de filmes estreiam sem que a maioria das pessoas saibam que eles existem. Uns por não conseguirem distribuição. Outros por se ficarem pelo circuito dos festivais. E outros, apesar de serem um sucesso no seu território, não passam fronteiras. Isso é mais frequente do que se pensa. Grande parte da indústria é para consumo próprio, seja em Portugal, Espanha ou Japão. No caso espanhol isso parecia resolvido. As várias produções feitas para o mercado internacional fortaleceram a indústria, deram nome aos artistas, até as temáticas começavam a ser mais genéricas. Querendo, podiam colocar filmes no mercado internacional. Não fiquei surpreendido ao saber de uma co-produção com os Países Baixos. Fiquei foi muito surpreendido pelo enorme número de críticas na imprensa espanhola sem que tivesse ouvido falar do filme por outros meios ou noutros países. É que, devido às várias temáticas, acabou por marcar presença em diferentes festivais de nicho. Como me escapou? “Molt Lluny” acompanha Sergio, um adepto do Espanyol que vai com a equipa ver um jogo da Taça UEFA em Utrecht em 2009. Por perder a carteira, fica impedido de viajar. Como não tem pressa, decide ficar lá por uns dias à espera que apareça. Como a situação em casa não é maravilhosa (nesse ano estávamos numa grande crise), acaba por prolongar a estadia por meses e sentir o que é ser um forasteiro, um ilegal sem documentos, na União Europeia. Há um diálogo incrivelmente perspicaz quase no início do filme. Manel: O meu subsídio de desemprego acabou. Por isso disse: Vou deixar esta m**** de país, com a sua maldita crise, onde não se consegue pagar a renda e todos estão tristes e zangados. Sergio: E como estão as coisas aqui? Manel: Aqui? Há uma crise lixada, não podes pagar a renda, as pessoas estão zangadas e deprimidas, mas ao menos não as entendo. Isso é um reflexo da sociedade de então e do seu desespero. Mas também da vontade de partir que define os povos ibéricos. E também inclui várias observações perspicazes sobre o destino. Um país cheio de emigrantes que pouco faz para os integrar quando chegam por meios que sejam um pouco alternativos. Uma mensagem cada vez mais actual. É engraçado que a visão espanhola só refere o vizinho Marrocos, ignorando por completo Portugal. Talvez por ser demasiado semelhante. Sergio além de ser catalão e espanhol, comunica aceitavelmente em inglês e até tenta aprender neerlandês. Um feito surpreendente. As dificuldades que encontra são grandes, mas não desiste. A depressão ou medo que o mantêm longe de casa, numa era em que ainda se pagava roaming, só aumentam a angústia. Várias das poucas amizades que forma são transacionais, entre pessoas também necessitadas. Vários meios de comunicação supostamente especializados referem que este é o melhor papel de Mario Casas, mas isso é um exagero. Casas tem um talento enorme para fazer de pessoa comum, o que muito ajuda aqui. Representa o espanhol típico, mas também um europeu sem rumo numa Europa em dificuldades, e um homem sem sonhos ou dinheiro, mas com uma liberdade e anonimato que nunca teve. Mas também tem muita ajuda para isso. A primeira obra de Gerard Oms (treinador de actores antes disso) teve imenso cuidado com o casting e com a diversidade étnica e de linguagem para parecer natural. Visita um país estrangeiro sem se deixar deslumbrar pelas vistas turísticas nem tentando ser autóctone. Tem coragem de tratar a cidade como um lugar irrelevante para a narrativa e deixa os indivíduos serem formigas insignificantes no meio da grande engrenagem que tritura sem perdão. É um filme algo lento, que obriga a pensar na situação, no que faríamos no seu lugar, e também como evoluímos (e no entanto estamos na mesma) ao fim de todos estes anos de integração. Uma bela surpresa. O filme vai passar dia 5 de Novembro no Queer Porto. Filmes Filmes 2025 FutebolHomossexualidadeNuno ReisQueer Porto 2025Trabalho IlegalViver no Estrangeiro