If You See Something Nuno Reis, 31 de Outubro de 202531 de Outubro de 2025 “If You See Something, Say Something“, “se vir algo, diga algo” Ser manipulado, às vezes, sabe bem. O título coloca-nos de imediato num cenário de desconfiança permanente. Um estado de vigilância constante que define o quotidiano contemporâneo, sobretudo quando o tema são os imigrantes. E mais ainda quando falamos dos Estados Unidos. O argumento não é muito recente, não pretende retratar o estado atual do país, mas sim a normalização do medo e da suspeita desde 2001, especialmente em relação aos árabes. A narrativa segue o casal Ali e Katie. Ela é americana branca, de gerações estabelecidas no país. Ele, um iraquiano recém-chegado que pediu asilo. Amam-se, mas as diferenças culturais e de experiência tornam a convivência difícil. Ali era médico e testemunhou o pior da guerra, perdendo amigos tanto para terroristas como para soldados americanos. Katie conhece esses horrores apenas pela perspectiva do invasor. Sabe os números, mas não lhes associa rostos. Ainda assim, comunicam, tentam compreender-se e interagir com outras culturas. A sós, poderiam ser felizes. O problema é o mundo que os rodeia. O filme abre com uma viagem ao aeroporto, onde o casal vai deixar Dawod. É, aparentemente, uma deslocação de rotina. Dawod conta uma história do tempo em que Ali estava no Iraque. Apesar do tema pesado, há momentos de descontração. Com a distância física e temporal, conseguem rir. Mesmo que Dawod esteja a regressar para lá. Aos poucos, o filme vai revelando a personalidade de cada um. Ali é instintivo e protetor, fazendo o que pode pelos outros – como homem e como médico – guardando os seus demónios bem fundo para não contaminar a nova vida. Katie, por sua vez, dirige uma pequena galeria de arte: vive rodeada do belo, numnegócio que exige constante negociação. É curiosa, interpretativa, e procura sempre respostas. Conhece todo o passado de Ali, inclusive os episódios mais sombrios e ilegais, mas há algo no presente que ele não consegue partilhar. Algo demasiado doloroso. Enquanto tenta proteger-se, Ali ainda enfrenta a insensibilidade dos que o rodeiam, sujeito a comentários e perguntas inoportunas. Os problemas de um casal normal, exacerbados pela situação em que um deles se encontra. “If You See Something” tem exatamente as personagens e o drama de que precisa. O realizador Oday Rasheed era a escolha natural: iraquiano, passou quase uma década a filmar a guerra antes de emigrar para Nova Iorque, e traz para o ecrã um olhar profundamente pessoal. O argumento, de Avram Ludwig (falecido) e da atriz Jess Jacobs, é meticulosamente construído para mostrar os dois lados. Os intérpretes também estão à altura. Adam Bakri, contido e preciso, transmite sofrimento, doença, medo e indiferença sem recorrer a explicações verbais. A fotografia acompanha-o num registo sombrio pelo que parece apagado, mas ainda assim brilha. Jacobs, por seu lado, encarna um leque igualmente vasto de emoções, só que é favorecida por planos luminosos que a mostram em pleno esplendor. O domínio do inglês parece dar-lhe também os diálogos mais fortes (pena não perceber árabe para avaliar o outro lado com a mesma precisão). Os atores secundários estão igualmente bem escolhidos. Vantagem de filmar em Nova Iorque, cidade da diversidade, onde não faltam talentos de todas as origens e idades. Há ainda uma opção artística notável que, por momentos, nos transporta para uma realidade completamente distinta. Quase para outro mundo. Da primeira vez com tal contraste que só podia ser onírico. Nas seguintes esse artifício volta a ser usado de formas inteligentes. Vendo de forma racional, o filme é bastante imparcial. Cada personagem faz o melhor que sabe com a informação que tem. Há pessoas más, lá longe, mas em solo americano não são maus. São apenas mal informados ou iludidos pelas aparências. E com prioridades diferentes. É um choque cultural. Ali é suspeito pela sua nacionalidade, mas o comportamento não ajuda. Até o simples facto de se dizer que ambos os lados estão certos é visto como anti-americano. Só se poderia integrar renegando à sua nacionalidade, à sua família, ao seu passado, à sua pele. Mas isso também se aplica a outros países! Devido a alguns indivíduos com más intenções há agora um longo caminho a percorrer para milhões. “If You See Something” é, afinal, um duplo retrato. A faceta mais aparente é esse tal choque cultural e incapacidade de perceber o nosso semelhante vindo de longe, mas também são evidentes as feridas invisíveis que a guerra deixa para as gerações futuras. É um grande problema para resolver por via do diálogo e de filmes como este. Filmes Filmes 2024 Asilo políticoImigraçãoNuno ReisRelação Intercultural