Belén Nuno Reis, 21 de Outubro de 202523 de Outubro de 2025 Somos todos Belén O cinema argentino continua a dar cartas. Apesar de poucos serem feitos (falta de apoios) e menos chegarem cá, todos os anos um par deles marca presença em grandes festivais, tanto no terror como no drama. Ambos os géneros normalmente escritos com base em factos históricos. Devemos estar atentos ao que vem desses lados. O Festival AR desapareceu, mas por vezes temos ciclos na Casa da América Latina (Belém, Lisboa). A Argentina já escolheu o seu candidato aos Oscares e Goya. Sem surpresa, foi um dos seus poucos filmes falados internacionalmente, “Belén”. Esta obra tem muito que se lhe diga, mas é importante frisar uma coisa. A trama parece ser sobre direitos da mulher, mas é sobre justiça. Os temas confundem-se e caso alguém tenha anti-corpos ao primeiro tema, deve ir ver pelo segundo. O ano é 2014. Uma mulher chega ao hospital com fortes dores de barriga. Minutos depois está presa. Quando Soledad Deza, uma advogada que ia a passar, ouve isso, fica escandalizada. Começa a investigar e descobre que lhe foi dada uma má advogada, o caso foi julgado à pressa, as provas desapareceram, e o relatório do caso está a ser demasiado protegido. Algo mais se passa e, incapaz de ficar parada perante uma injustiça, Soledad vai levar a peito a missão de garantir justiça para a acusada. Tudo começou com Ana Correa. Esta escritora e investigadora feminista passou este caso real para livro. Depois a actriz Dolores Fonzi colaborou na adaptação do argumento, realizou e protagonizou o filme. Apesar de não ter fama internacional, Fonzi teve uma grande carreira como actriz na Argentina e até uns prémios. Como realizadora, esta foi apenas a segunda oportunidade. Em parte era um risco, mas ser uma mulher a liderar a equipa fazia sentido. Juntar a pressão e a inexperiência de dirigir uma segunda obra com a personagem principal era ainda mais arriscado mas mal se nota. Com argumento, interpretação e realização, Fonzi tinha em si toda a responsabilidade de fazer o filme. E o mérito pelo sucesso final. No geral é um filme muito competente. Tem algumas falhas no sangue a escorrer, mas só o olho especializado notaria. A trama é construída de forma clara e envolvente. Começa como um caso, até que se torna um padrão, e depois um movimento. Há intrigas secundárias e todos os elementos habituais nestas histórias. Vemos a bondade e a indiferença nas pessoas, assim como o fanatismo que se opõe a conceitos genéricos sem ligar aos detalhes particulares. E o elenco é convincente. Principalmente Camila Plaate que tem a personagem mais complexa como a acusada. Até a personagem da advogada, que já está acostumada à crueldade e lentidão do sistema, permite a Fonzi algumas cenas para mostrar um novo leque de emoções. O argumento tem momentos de descontração para mostrar que além dos casos, ainda há uma vida pessoal a decorrer. Foi um detalhe inteligente e eficaz. Contudo, o melhor foi mesmo não se focar a cem por cento no tema do aborto e dos direitos das mulheres, mas usar isso como exemplo de algo que pode acontecer a qualquer um, independentemente do género e do crime. Hoje é ela, hoje será outro qualquer. O sucesso de “Belén” foi uma forma de promover o livro “Somos Belén” e os seus valores que já na altura tinham sido populares. Mostra que as injustiças sobre minorias só são possíveis quando o sistema judicial no seu todo está avariado. E relembra que o povo é que manda no país. Só por isso devia ser visto. Filmes Filmes 2025 AbortoCasos ReaisDireitoMulheresNuno Reis