The Vile Nuno Reis, 22 de Outubro de 202523 de Outubro de 2025 O terror não tem de recorrer a efeitos especiais, a sons precisos ou a monstros aterradores. Muitas vezes basta focar-se nos medos mais próximos que tiram o sono a uma pessoa. A proposta de “Hoba” (”The Vile”) faz precisamente isso. E desde a primeira cena. Aliás, a cena de abertura é um terror demasiado bem feito para ter sido coincidência. Majid Al Ansari sabe o que faz e declara conhecer as regras do género antes de as deturpar. Aquela casa não está assombrada, mas o lar está. A premissa é muito simples: Amani (Bdoor Mohammad) vive com a filha Noor (Iman Tarik) e o marido Khalid (Jasem AlKharraz). Tudo está normal nas suas vidas e o aniversário que se avizinha é o único motivo de conversa. De repente, ele traz para casa uma segunda mulher, Zahra (Sarah Taibah). E então veremos uma mudança imediata. O choque cultural da banalidade com que se traz uma segunda esposa para casa. A impossibilidade de aceitação da primeira esposa que se sente relegada, traída, trocada. A confusão da filha que tem uma madrasta na mesma casa que tem a mãe. E Khalid que pensa que ter uma segunda esposa melhor do que trair e acha que Amani está a exagerar. Estamos perante um cruzamento de géneros e temas sob o manto do terror. É um drama sobre um tipo de traição muito específico. Algo que ainda está na lei de várias países árabes, mas que a sociedade começa a ver com maus olhos e as gerações mais novas encaram como anacronismo. Este monstro não está na escuridão. Estava em segredo e vem para tomar o seu lugar equalitário numa família que era feliz há anos. De um lado temos Amani a sofrer. Do outro temos Zahra a tentar encaixar-se numa harmonia familiar que não a quer. E Noor, inocente, incapaz de odiar. Três mulheres de idades diferentes (e por vezes ainda a irmã de Amani) com diferentes visões da situação. Sâo usados vários truques do terror para simbolizar o desequilíbrio que o novo elemento traz. Algo está a acontecer no escuro da casa. Será a aura maligna de Zahra ou a mente de Amani que colapsou com a novidade? E algo se passa no exterior durante o dia. O bullying a Noor pela sua família destroçada. A verdade, essa fica em suspenso até ao final. As interpretações são poderosas. Bdoor Mohammad é a estrela do filme. Tão depressa é uma mãe carinhosa, como uma esposa revoltada ou uma mulher perdida. Pode ser lutadora, ou fugir covardemente. Nunca sabemos o que esperar, mas sentimos o que ela quer que sintamos. Sarah Taibah também merece menção. Apesar de ter pouco tempo em cena, tem uma presença de espírito. Surge quando menos se espera, estranhamente calma por fora, mas fomos condicionados para vermos que é perturbadora por dentro. A sua ameaça maior é ser uma incógnita. Jasem AlKharraz está muito ausente. Talvez porque a sua autoridade não daria espaço para o conflito germinar. E Iman Tarik tem várias cenas importantes, também levando o filme sozinha durante alguns minutos. A casa tem a claustrofobia e a escuridão, a música também condiciona a ficarmos focados no terror, mas aqui nunca temos o susto fácil. É tudo construção de atmosfera para que se sofra. Um espectador com os sentidos em alerta é mais fácil de prender do que no típico drama. O principal medo para quem assiste é o tema da poligamia. A mulher que era senhora do lar (já que naquela sociedade pouco pode fazer fora de casa) vê o seu lugar ameaçado. O lar deixa de ser o porto seguro. O marido vai dividir a sua atenção. Talvez os filhos também. Quando isso é o foco da identidade de uma pessoa, a mudança é um grande choque. É o ruína do único poder existente. Em especial por ser tão tarde na vida do casal, quando já estava certa da ser a única e de viver felizes e juntos para sempre. O filme é muito ambicioso e relevante para a nossa era. A fotografia apesar de ter um estilo antigo (foi filmado em 16mm), está competente. E nada tecnicamente precisa de melhorias. Pode desiludir quem procura o terror convencional, mas é uma experiência de horror cultural e um grande passo para o cinema árabe se afastar das tradições e estereótipos. Tem uma voz e sabe que o futuro é diferente do passado. O terror foi apenas o veículo para as vozes dissonantes se manifestarem. Filmes Filmes 2025 Casa assombradaGravidezMadrastaNuno ReisSitges 2025