Alone Together (2022) Nuno Reis, 12 de Outubro de 202324 de Outubro de 2025 Alguns filmes aproveitam momentos históricos para captar atenção. Outros, sabem esperar para lucrar do saudosismo. No caso do COVID nem era bom lançar na época (as pessoas não iam ao cinema), nem há um saudosismo. Só se vier uma pandemia ainda pior é que alguém diria “que saudades de 2020”. Portanto, em 2022 saiu um filme sobre o confinamento e as novas sensações descobertas quando a espécie mais social do planeta aprende a viver em isolamento. Esta ideia escrita, realizada e protagonizada por Katie Holmes, com Jim Sturgess, Derek Luke e Melissa Leo a completarem o elenco, foca-se num dos poucos temas possíveis em pandemia: desconhecidos que são obrigados a confinarem juntos. Meados de março de 2020, início do pânico. June ia com John, o namorado de longa data, para um AirBnB no campo. A cidade estava a começar a entrar em pânico. Os transportes públicos ou eram cancelados ou estavam esgotados. Para piorar, John não consegue deixar os pais e June acaba sozinha rumo a nenhures. E como se isso não fosse suficiente, a casa para onde iam teve dupla marcação. Charlie está lá e não tem intenções de sair. Como estão longe de tudo, acabam a dividir o espaço. Enquanto a sociedade que conhecem se desmorona rumo ao desconhecido, eles começam a aproximar-se. A confidenciar com alguém que não conheciam dias antes. “Alone Together” começa da forma previsível. Situa-nos em 2020 e causa os arrepios de quem sabe o que se segue àquilo. Demasiadas memórias e coincidências. O filme não tem nada de especial nesse momento e a reputação de Holmes como realizadora não melhora. Lentamente vamos vendo a solidão e a perda a marcarem aquelas pessoas. Com o elenco reduzido, o foco está em basicamente duas personagens muito recatadas perante estranhos. Entra em lugares-comuns dentro das suas limitações, mas dá uma nova perspectiva a velhos sentimentos. No fundo, continuamos a ser humanos. O filme é portanto minimalista que é o que era possível e o que era preciso. É sobre a solidão que se sente mesmo numa casa cheia, numa cidade desconfinada. Basta não nos atenderem uma chamada para destruir uma pessoa por dentro. Para a segunda parte, há um ligeira mudança de tom. O mundo entra em modo de pânico e eles estão alheios a isso. June tem planos de futuro, mas aprendeu com Charlie e vive no momento. Aprende a apreciar as pequenas coisas, como todos nós nessa altura. Não temos de ver hospitais e tubos. Tivemos imagens suficientes dessas. Pela cara de uma pessoa sabemos quando perdem alguém. Temos momentos de partilha de sentimentos com estranhos. É como estar novamente lá. “Alone Together” é silêncio. É uma oportunidade de recordar o que sentimos então e de reconsiderar como vivemos agora. E se for preciso, temos as panelas a fazer barulho nas janelas para nos rcordar que nos momentos de dificuldade não estamos sós. Simples, mas terrivelmente eficaz. E que espero não voltar a ver pois não precisamos de sentir isto mais de duas vezes. Filmes Filmes 2022 CovidIsolamentoNuno ReisPandemia