A Floresta das Almas Perdidas Nuno Reis, 11 de Outubro de 201725 de Outubro de 2025 Esta semana chega às salas nacionais um filme português de terror. Apontado pela Newsweek como um dos 22 títulos fundamentais do ano para os amantes de terror e normalmente descrito como um thriller artístico, a melhor forma de falar desta primeira longa de José Pedro Lopes é com muito cuidado. Se na sua curta “Survivalismo”, o maior erro foi dar demasiada informação, aqui houve o cuidado de não dizer rigorosamente nada a mais. Apenas que se baseia na floresta de Aokighara, o mais popular destino de suicídios no Japão, mas tendo lugar no norte de Portugal. Nesta história um homem e uma jovem encontram-se por acaso quando se mentalizam para cometerem suicídio. Os seus motivos são diferentes. Ele desistiu devido ao passado. Ela desistiu de acreditar num futuro melhor. Juntos talvez reconsiderem, ou encontrem a força necessária para darem esse passo irreversível. Não é a primeira vez que o cinema feito a norte escolhe o tema dos suicídios para brincar. Em “Suicídio Encomendado” uma empresa assistia quem queria por termo à vida e o destino teimava em impedir a concretização. Aqui é diferente. Ambos chegam mais ou menos preparados para o acto e não precisam de ajuda. Só querem reflectir antes de fazerem algo do que se possam arrepender. Partilham esses últimos momentos e vão trocando perspectivas da vida. Ou melhor, vão soltando ideias que pairam incompreendidas devido à diferença de idade. São pessoas diferentes e não se compreendem. Claro que no filme há muito mais do que uma conversa, mas não se pode falar demasiado sem estragar. Pode ser uma primeira longa, mas é um filme feito como as curtas. Aliás, no elenco estão caras conhecidas e nos cenários há um piscar de olhos para quem vê as curtas do Anexo 82. Nota-se um cuidado extra com a fotografia e a edição de som, e apesar da importância do silêncio, a banda sonora tem um tema principal a fazer recordar Claudio Simonetti e há uma cena que deixará os conhecedores de Godard com um sorriso. Os diálogos são o ponto forte do argumento. Especialmente quando o filme atinge o seu melhor momento, confundindo os espectadores sobre se será um thiller ou uma comédia. No geral é um filme bem feito, que podia ter alguns planos alterados e algum cuidado extra nos diálogos devido à sua importância. Mas quando começa a segunda parte da narrativa, nada disso interessa pois as regras são alteradas Não podendo ser revelado nada mais, apenas se pode dizer que é dada uma nova dimensão ao filme e aí o arthouse combina com o terror e a escolha do preto e branco fica justificada. Quando termina, dá a sensação de ser curto (porque o é) e que podia ter sido mais elaborado nas primeiras duas histórias. Talvez com uma aura mais onírica e um aprofundamento do debate filosófico que, de tão bom que podia ser, desaponta por não ser melhor explorado. Com a originalidade da ideia e uma maior aposta no desenvolvimento das personagens, podia ter sido muito bom. É daqueles casos em que o filme não atinge todo o potencial, mas percebe-se porque a imprensa gostou e não seria de estranhar se um produtor maior quisesse explorar estes diamantes em bruto (filme ou realizador). É uma obra para fazer pensar e que certamente levará muita gente a ver os festivais de verão e os passeios junto ao lago com outros olhos. E, esperemos, a evitar os suicídios, pois está visto que nunca acabam bem. Filmes Filmes 2017 FlorestaNuno ReisSuicídio