Shelley Nuno Reis, 8 de Setembro de 201613 de Dezembro de 2025 Este texto foi influenciado por um visionamento seguido por uma sessão de Q&A que muda completamente a perspectiva que um espectador com menos background e menos informação da boca do realizador pudesse ter. O iraniano Ali Abbasi está a dar os primeiros passos no mundo do cinema e optou para a sua primeira longa-metragem por uma história do próprio ambientada na distante Dinamarca. Com produção local e vários talentos escandinavos e a romena Cosmina Stratan, oferece-nos uma nova visão sobre a gravidez que se aproxima do que “Rosemary’s Baby” fez há vários anos: um longo drama com vários picos de tensão e uma sombra maldita a pairar sobre uma família dita normal. “Shelley” começa um qualquer drama familiar. Um casal escandinavo contratou uma jovem romena para os ajudar com as actividades domésticas enquanto a mulher recupera de uma intervenção cirúrgica. A jovem Elena fica um pouco chocada ao descobrir que eles vivem literalmente do que a terra lhes dá e dispensam coisas que a nossa sociedade dá como certas, como a electricidade e a água canalizada. Quando Elena recebe uma proposta para ser barriga de aluguer, a vida dos três vai mudar. Em especial porque Elena sabe o que é estar grávida e esta vez não está a ser nada parecida. É como se a sua vida fosse lentamente sugada pela criança por nascer. A construção deste pequeno mundo indiferente aos luxos de uma sociedade avançada como a Dinamarquesa e que parece antiquado até para alguém vindo da Roménia não é um grande choque. Tirando o detalhe de não terem frigorífico (compensado pelo frio exterior) é perfeitamente plausível viver assim por opção. A presença de um xamã que cura as energias começa a ser demasiado alternativo, mas ainda compreensível. Há um acontecimento perturbador que causa uma importante mudança na narrativa e muda ligeiramente o tom do filme, tornando-o menos tortuoso, voltando a ser “apenas um drama”, mas fazendo antever que o desfecho se aproxima. Essa é a grande força do filme. Por funcionar bem apenas como drama e ter um terror muito contido, é credível que baste. É um equilíbrio difícil de atingir – e ainda mais complicado pelos diferentes idiomas utilizados – mas consegue encontrar o seu propósito e há um público para isto e mais facilmente num festival de terror do que num generalista. Porque o filme não consegue assustar de forma directa, é preciso ser capaz de imaginar o que aí virá para sentir medo. E partindo dessa perspectiva a história no seu todo foi bem conseguida. Há algumas coisas que não fazem sentido, mas tanto podem ser parte da ratoeira inofensiva montada pelo casal, como alucinações da incubadora humana, a sofrer com a distância e a mudança cultural. O espectador regular de filmes de terror é a vítima perfeita para a manipulação que é feita. Num ano em que “A L’Interieur” vai ter um remake e “The Omen” está nas televisões em formato série, é bom ver que ainda há novas histórias sobre crianças por nascer capazes de despertar a pior parte da nossa imaginação. Filmes Filmes 2016 GravidezMOTELx 2016Nuno Reis