Pride and Prejudice and Zombies Nuno Reis, 17 de Março de 201611 de Dezembro de 2025 As adaptações de Jane Austen a cinema costumam ter pouca visibilidade fora dos círculos literários onde já é lida e celebrada há séculos. Por vezes há uns fenómenos como “Emma” em 1996 (entretanto caído no esquecimento) e “Pride and Prejudice” cuja versão mais aplaudida foi a de 2005. Isso está prestes a mudar com a versão que hoje está disponível nos cinemas nacionais pois de romances de outra época passamos para um tema muito mais apelativo: zombies. Afinal, que história não fica melhor com uns zombies? Mesmo tendo sido uma produto da imaginação de Seth Grahame-Smith que nos trouxe o execrável “Abraham Lincoln: Vampire Hunter” (antes também diria que tudo fica melhor com vampiros, mas isto fez-me mudar de ideias), “Pride and Prejudice and Zombies” – cá traduzido para “Orgulho e Preconceito e Guerra” já que na mente de alguém os zombies não devem ser tão chamativos como guerra – é exactamente aquilo que se propunha. Para uns temos o clássico Pride and Prejudice britânico com as irmãs Bennet a darem cabo da cabeça de todos os homens das redondezas de uma forma ou outra. Para os outros, temos aquilo que sobra: ZOMBIES! Não é preciso dizer muito mais. As histórias de Jane Austen costumam ser consideradas uma referência do feminismo por terem mulheres fortes e independentes que dizem o que pensam. Ainda que o seu único poder de decisão seja dizerem com que homem querem casar, é um grande passo para a época. Elizabeth Bennet é a personagem maior desta obra e mexe-se muito bem para o colete de forças que era a sociedade por classes de há duzentos anos. Lily James encarna perfeitamente essa mulher de garra (bem melhor do que a sonsa Cinderella que fez no ano passado) e consegue sozinha levar o filme a bom porto. Mas ela tem quatro irmãs e o seu trabalho conjunto também é merecedor de destaque. Tal como no original, tudo começa com o baile. Quando as cinco Bennet se vestem para o baile e vão guardando facas nas ligas, o filme torna-se imediatamente interessante para o público masculino. Mas quando as tiram para fora é um pontapé de saída tão fabuloso, que coloca as expectativas logo no topo (e depois desilude, mas só por essa cena já valeu o bilhete). Charles Dance num papel discreto é o pai. Como é explicado no início do filme, sabiamente optou por educar as filhas nas artes marciais chinesas em vez de seguir o exemplo da burguesia que preferiu o Japão. Depois quase que desaparece de cena para Elizabeth passar o resto do filme a fintar os homens, a discutir com o Coronel Darcy, e a salvar as irmãs e a sociedade inglesa dos zombies. Claro que a história do Orgulho e do Preconceito não tem muito de novo para nos dar, mas o twist com zombies permite esquecer o que se sabe do livro e assistir como sendo uma obra quase diferente que a qualquer momento pode trazer algo original. Portanto, entre o guarda-roupa e os cenários de época, as mulheres belíssimas que mostram as ligas e os decotes, os zombies feios que criam armadilhas e os imensos homens caricaturais, dá para passar um bom momento assistindo ao romance quase intemporal tornado num filme de acção fora do comum. Fica só uma questão: quem pagava todas aquelas rendas se as terras dos humanos eram pouquíssimas? Filmes Filmes 2016 Adaptação literáriaartes marciaisMulher forteMulheresNuno ReisZombies