One Battle After Another Nuno Reis, 23 de Novembro de 202511 de Janeiro de 2026 Costuma-se dizer que ver um filme é uma experiência. Ver este filme é isso, mas também é uma grande surpresa. Há tal diversidade de temas que só se acaba de digerir dias depois. O título sugere um conflito contínuo. Mas não é uma guerra convencional. Começamos com um movimento de auxílio aos imigrantes detidos na fronteira. São um grupo algo extremista. Não matam os guardas, mas destroem muito. Perfidia é o rosto e motor do movimento. Bob é o especialista em explosivos. O Coronel Lockjaw odeia-os e o que representam pelo que os quer destruir, mas está fascinado por Perfidia. Obcecado seria a melhor palavra. As duas frentes enfrentam-se com tácticas de guerrilha e subitamente os cadáveres começam a acumular-se. Mas o filme é muito mais do que isso. Dezasseis anos depois foca-se em Bob e na filha que levam uma vida bastante normal. Pelo menos longe de todos os códigos secretos e das mortes. Até que o Coronel é convidado para um grupo racista secreto e tem de limar alguns detalhes do seu passado, perseguindo todos os relacionados com o movimento que debilitou, mas não abliterou. Anderson prova desde a abertura saber estar a trabalhar com temas fulcrais da nossa era. Por um lado o “nós contra eles” actual nos EUA. Uma guerra aos imigrantes mexicanos, que é não a sequela, mas a continuação de um confronto racial com mais de 200 anos. Ao início apresenta-se como uma variação do Black Liberation Army, mas inter-racial. Com toda a escalada de violência e a mentalidade paranóica que rodeia quem ficou demasiado tempo a olhar sobre o ombro. São mesmo batalhas. Lentamente vemos que entram na clandestinidade e a chama enfrquece, mas a sociedade também não tinha como piorar mais. O elenco tem grande qualidade, mas pode ser reduzido aos três nome no topo do cartaz. Teyana Taylor como Pefidia, uma figura quase mítica, causa impacto mas desaparece. DiCaprio como Bob tem uma performance de alto nível. Entre ser um entusiasta nervoso da causa, até se tornar um pai com proioridades diferentes, e finalmente um paranóico que sobrevive às memórias através do consumo de drogas e álcool. Regina Hall tem uma pequena participação, mais relevante pelo estatuto da actriz do que pelas acções da personagem. Sean Penn como o Coronel está irreconhecível e é facilmente a estrela do filme. Está na minha lista para o Oscar de Actor Secundário. Benicio Del Toro – fabuloso – é o sensei que consegue manter a calma quando o mundo enlouqueceu. O filme tem alguns toques de humor e loucura, e Del Toro move-se com uma suavidade por tudo isso que facilmente eclipsa DiCaprio em diversas cenas. E finalmente temos Chase Infiniti. A novata (tem apenas uma mini-série e um videoclip no CV) é o retrato de uma nova geração. O que podia ser sido apenas uma adolescente rebelde, desenvolve todo um trauma em poucas horas. Tem um futuro brilhante pela frente. Se o filme fosse apenas DiCaprio, Penn e Infiniti ficavamos satisfeitos com o drama e a trama complexa. Tudo o resto, em especial Del Toro, é para afirmar que existem muitos mais problemas, muitos mais pequenos exércitos e combater pequenas batalhas, muitas mais coisas a corrigir num país que outrora foi uma referência. A polarização moderna causou muitas divisões, mas o inimigo é comum e ideológico. Isto é um filme político. Um grito contra o ridículo e perigoso se tornou o mundo. Duas horas e quarenta minutos de gritos e desespero, sem puxar à lágrima fácil e com a ocasional piada que não arruina o drama. Tudo isso com uma fotografia imponente – por isso tantos entrevistados diziam para se ver em cinema – e uma banda sonora que marca presença e influencia o estado de espírito de espectador. E tem planos-sequência de enorme qualidade para as estrelas brilharem. “One Battle After Another” é uma mistura de géneros que não funcionará com todos os públicos (muito dificil vender fora dos EUA). Como todos os filmes de Anderson não quer ser apenas entretenimento, mas não quer ser apenas o manifesto de uma geração. Quer ser um lembrete. Uma oportunidade para recordar que o nosso passado nunca nos deixa. Que os facilitismos do presente nos comprometem o futuro (a amnésia de Bob quando precisa de tirar senhas com 16 anos de um cérebro queimado pelas drogas é brilhante). E que o planeta não é nosso, apenas o temos de manter para a geração futura. Eles continuarão a luta por aquilo em que acreditamos. Filmes Filmes 2025 famíliaGuerraImigraçãoNuno ReisPlanos Sequência