Lesbian Space Princess Nuno Reis, 24 de Novembro de 202523 de Novembro de 2025 A vontade de ver um filme começa nas pequenas coisas. Um cartaz que dê destaque ou um título completamente inesperado, funcionam como chamariz. Podem ser o suficiente para desencaminhar um espectador que tenha saído de casa para ir ver outra coisa com um enorme orçamento para marketing. Na era do streaming é ainda mais fácil. As pessoas não sabem o que ver e ligam a televisão em busca de algo específico. Pode ser a série conforto de todos os dias. Pode ser algo monótono para descomprimir do dia agitado ou para fazer ruído enquanto se cozinha. Por vezes, é algo disruptivo que se evidencie entre o “mais do mesmo” que nos enche as sugestões. A última vez que a palavra Lésbica surgiu num filme, foi no distance ano de 2009 em que uns homens decidiram que o título mais vendável era sobre vampiras lésbicas. Neste temos uma completa mudança de mentalidade. Uma equipa mais diversa conseguiu fazer um título menos sexual e igualmente divertido. Aqui temos uma lésbica. No espaço. E que é uma princesa. A ideia base é exactamente assim simples. Saira, a princesa espacial de Clitopolis, é muito racatada e aborrecida. Uma desilusão para todo o planeta. Mas quando a sua ex-namorada é raptada pelos Straight White Maliens, Saira embarca numa missão de resgate. Uma introvertida, numa nave preconceituosa, contra estereótipos ambulantes, Com referências por todo o lado e temáticas irreverentes. Apesar do impacto visual que torna difícil desviar o olhar, vendo com atenção podemos tirar ainda mais mensagens dos cartazes no quarto da princesa ou dos autocolantes na nave. Vai beber imenso à ficção científica kitsch dos anos 70 e 80, mas com uma mentalidade moderna. É sobre uma heroína que não o quer ser. Sobre as expectativas de várias sociedades e os desejos do indivíduo. É sobre identidade de género e todas as temáticas queer que se possam imaginar. Mas não é humor fácil. Apesar de ter imensos trocadilhos que só funcionam em inglês, a maioria do humor é inteligente e vai para bem longe do previsível. Também pega nos clichés que se vêem do espaço, mas são tantos que consegue trazer sempre algo novo. Tem mensagens poderosas tanto na narrativa, como nas entrelinhas. Ao longo da viagem explora a autoestima, a autoaceitação, a insegurança. De uma pessoa normal, mas também de uma princesa sujeita a escrutínio constante. É sobre a superação do indivíduo, mas também sobre o universo evoluir. Aqui a heroína tradicional é que tem de ser salva. A princesa tem de enfrentar os seus próprios monstros e os dos outros. Tem de saber o que quer e lutar por isso. Antes de terminar, ainda uma nota sobre o elenco vocal. Shabana Azeez que já temos visto em algumas coisas, está no início de grande carreira. Ser a voz da princesa é uma nota da sua versatilidade. Ao seu lado tem Gemma Chua-Tran como a optimista – mas distraída – Willow que é uma lufada de frescura quando o filme começava a ficar sem rumo. Bernie Van Tiel como a prisioneira ou Ricard Roxburgh como a nave fazem um bom trabalho. Quando ouvi falar do filme, sabia que tinha de ver. Só não sabia ao que ia. Quando começou soube que ia ser diferente. Quando terminou, estava convencido. É um filme que ficará datado quando um futuro que tarda a chegar for a norma. Até lá, pelo menos vamos rindo. Filmes Filmes 2024 Alienígenaexploração espacialHomossexualidadeMulheresNuno Reis