After the Hunt Nuno Reis, 28 de Novembro de 202511 de Janeiro de 2026 Um dos filmes mais aguardados do ano foi também uma desilusão. Talvez porque ninguém sabia bem o que esperar e Guadagnino fez o filme que queria, não o que esperavam dele. A história tem lugar no meio académico. Alma, uma professora de filosofia, gosta de organizar serões para troca de ideias. Além dos seus amigos snobes também tem o seu colega Hank e vários dos seus doutorandos. Numa dessas noites, Maggie, uma das alunas, saiu com Hank. No dia seguinte confessa a Alma que ele a violou. Entre decisões a serem tomadas, consequências a serem enfrentadas, a posições a serem assumidas, todos vão ser afectados por isso. Acima de tudo, este é um filme que atravessa gerações. Consoante a personagem com quem nos identificamos, teremos uma visão diferente da história. Alma é a professora com décadas de experiência. Já viu de tudo e preocupa-se com o estatuto. Mas é exigente com todos. Esta situação até a pode beneficiar – competia contra Hank pela cátedra em Yale – mas está revoltada pelo que a faz recordar. Há uma história semelhante no seu passado. E tem outros problemas no presente. Assume-se como que com uma autoridade moral sobre os outros, sendo que na verdade até será quem tem mais falhas. Ainda que seja excelente a disfarçá-las. Representa uma geração que assiste âs mudanças sociais e, como muito bem descrito por Maggie, tem boas intenções, mas é incapaz de se adaptar a um novo feminismo. Julia Roberts já interpretou várias professoras. Esta foi a primeira verdadeiramente complexa e, ainda que não nos surpreenda, é convincente. A tal ponto que se torna difícil imaginar mais alguém no papel. Mas por ser uma personagem muito contida e controlada, parece uma interpetação frouxa o que está longe da verdade. Hank é um novo estilo de professor. De outra geração, mas também mais jovem em idade. E homem. Tem comportamentos irreverentes que não seriam bem vistos ou tolerados vindos de uma mulher. Está impregnado de confiança. Garfield dá muito pela personagem, mas cai em exagero. É com as pequenas coisas que faz de Hank um credível vilão desde o início. Sendo Hank das poucas perspectivas masculinas, ao entrar nas engranagens do socialmente correcto, do #MeToo e do cancelamento, fica com a reputação e a vida destruídas num instante. Isso vai fazer com que se veja um lado mais selvagem deste professor, ao mesmo tempo que vemos que até é competente e não estava lá só por ser um homem branco cis e hetero. Alma é a aluna aparentemente genial e de enorme potencial. Envolve-se em conversas inteligentas e tem opiniões válidas. Vem de uma família abastada e com estatuto, mas assim que tem dificuldades e quer ser ouvida, usa a carta da raça. Atendendo ao contexto em que se insere, até terá alguma razão. É que, se a universidade acreditou e agiu imediatamente, a sociedade precisa de um pouco mais para se chocar. Cada um deve usar o qaue tem para ser ouvido. Ambos os professores vêem para lá da máscara, mas ela avança como rosto de uma causa. Não a exigir mudanças sistémicas, mas apenas a exigir ser ouvida. Que aos outros parece ruído, mas para ela é erguer-se e lutar perante as dificuldades. Ayo Edebiri não foi a primeira ou segunda escolha para o papel, mas tornou-o seu. Foi bem mais interessante aqui do que como jovem jornalista em “Opus”. Pelas expressões faciais. Pelas micro-pausas nos diálogos. Pela raiva contida. Por conseguir manipular a opinião com um olhar. Os poucos minutos a que tem direito bastam para mostrar que temos uma estrela em ascensão aqui. Uma nota ainda para o incrível Michael Stuhlbarg que começa como uma personagem mínima, mas é uma presença quase solene. Sempre com um comentário sagaz, a atitude certa, o toque reconfortante. Passa despercebido no meio das estrelas maiores, mas é o mais fundamental. O filme no seu todo é longo, muito centrado em Roberts e ignora as outras perspectivas. Quem se identificar com outra personagem obviamente vai ficar desiludido. Depois tem uma enorme componente sonora que confunde mais do que ajuda. E rouba a Woody Allen mais do que a fonte dos créditos (que já tinha usado antes). É um estilo de drama como o outro realizador fazia nos anos 90, só adaptado à década em curso. Uma de disconexão entre gerações, de ódio. Maggie também fala disso. É um filme cheio de intenções, com actores de topo e uma produção que foi pensada ao pormenor se estivermos atentos. Só que no seu todo, soa a oco. Tinha de ser mais assertivo, mais polémico. Menos mensagens metidas nas entrelinhas e mais gritadas com todos os pulmões. Para ver, mas dificilmente para rever. Filmes Filmes 2025 acusaçãoAmazon PrimedependênciaNuno ReisProfessoresUniversidadeviolência