Below the Clouds Nuno Reis, 8 de Dezembro de 20257 de Dezembro de 2025 Já visitei Itália por diversas vezes, incluindo Nápoles e a sua envolvente. A primeira coisa que costumo recomendar em Roma é o Museu da Cidade. Náo é dedicado a um período, a um edifício, ou algo específico. É sobre Roma, uma cidade com milhentas histórias para contar. Ainda que todos os que a visitam se foquem sempre nos mesmos. O mesmo se passa em Nápoles, Com toda a sua história, as pessoas só querem falar do Vesúvio! Este documentário vem fazer um resumo do que foi e do que é Nápoles. Os seus tesouros milenares, as suas pessoas, as histórias do dia a dia. Mas logo no título começa por evocar o monstro incontornável. “Sob as nuvens” vem de uma frase de Jean Cocteau: “O Vesúvio cria todas as nuvens do mundo”. Pensar que todas as nuvens do mundo nascem em Nápoles é algo lindo que só um poeta poderia dizer. Mas é ao mesmo tempo assustador. O mero pensamento da quantidade inimaginável que fumo que ele teria visto para chegar a esta conclusão causa arrepios. Se forem procurar críticas ao filme de Gianfranco Rosi, todas se focarão nos mesmos pontos. As escavações de Pompeia. A central telefónica do número de emergência numa noite de terramoto. Um cargueiro com cereais vindos de Odessa onde marinheiros sírios fazem piadas sobre estarem acostumados a bombas. E um centro de estudos onde as crianças fazem os trabalhos de casa sob a supervisão de um senhor de idade que sabe a tabuada e lê Os Miseráveis. São 112 minutos apenas sobre isso. Tudo o resto são planos belíssimos de nada. As escavações dão mais detalhe do que o normal. Falam do que foi encontrado, de como retiram história do meio das cinzas. Inclusivamente arqueologistas japoneses que ali trabalham, E falam dos ladrões que levaram tudo o que puderam sem respeito pelo património e pela memória colectiva. Daqui saltamos para a central. Ouvimos chamadas em que a população quer saber se foi mesmo um terramoto, se foi forte, se vai haver mais, o que devem fazer. Bastante corriqueiro, mas que revela os ssentimentos e pesadelos de quem vive numa região vulcânica activa. “Vocês estão a vigiar o Vesúvio? Se ele acordar avisam-nos ou deixam-nos a morrer?” Intenso. Além dessas chamadas temos mais algumas. Que mostram a Nápoles normal. Com pessoas morbidamente obesas, violência doméstica e gatos nas árvores. Não fosse o terramoto, e seria uma cidade como tantas outras. Daí passamos para o cargueiro. Um símbolo do papel de Nápoles no comércio global. O que os estrangeiros sabem sobre a cidade – pizza – e como a aproveitam. Faz a ponte com a Síria e a Ucrânia e um paralelismo com o comércio no tempo dso Romanos. Interessante, ainda que não seja óbvio. E claro, o tal centro de explicações onde se forma e se constrói o futuro da população. Desnecessário, a não ser que alguém queira reaprender três vezes três. Dos primeiros 45 minutos, aproveitam-se 15. Depois chega o barco e temos mais alguns detalhes dos túneis, mas a proporção de conteúdo para as cenas exibidas deve ser semelhante. E depois ainda há mais vinte minutos de nada. Tudo isso numa incrível fotografia a preto e branco que dá gosto ver… desde que levem um livro para ler nos momentos mortos. Um documentário deve ensinar, ou pelo menos mostrar. Não é bom sinal ser uma excelente oportunidade de meditar. Até porque a edição também corta o som em algumas transições de cena. Chega a parecer mais um problema técnico que uma opção artística quando este documentário era claramente uma tentativa de fazer arte com a realidade. Seria muito agradável ver um director’s cut ou o cut de alguém que queria mesmo cortar. Desde que para metade. Filmes Filmes 2025 arquelogiaerupçãoHistóricoNuno Reisvulcão