Little Amélie or the Character of Rain Nuno Reis, 31 de Dezembro de 202518 de Fevereiro de 2026 Vamos às perguntas sérias. Para quê viver sem chocolate? Quando Amélie nasceu, os médicos descreveram-na como um vegetal. Incapaz de reagir a estímulos. Os pais não quiseram saber desses diagnósticos pessimistas e levaram-na para casa, onde os irmãos a esperavam. Continuou a existir até conhecer a avó que lhe trazia chocolate branco da Bélgica. Nesse momento Amélie decidiu que se podia mexer, andar, falar e viver. Com chocolate tudo faz sentido. Claro que os pais não estavam preparados para esse furacão repentino. Ainda bem que, nesse mesmo dia, lhes apareceu à porta Nishio-San para ajudar com as crianças. Está iniciada a aventura de Amélie no país em que Amé (雨) significa chuva. Tal como a chuva, esta criança vai trazer muita frescura, muito movimento e algum caos. Apesar de também ser um filme sobre belgas no Japão, isso não é relevante. A família é uma família como em qualquer outro país, a casa é japonesa com camas europeias, mas Amélie cresce sentindo-se japonesa. Enquanto a senhoria odeia os estrangeiros por causa de uma guerra que teve lugar há trinta anos, Nishio sabe que estes belgas não são culpados pela guerra. Muito menos seria uma criança de dois anos. E por isso enche-a de amor. A alma do filme reside no elo entre a criança e Nishio, que cuida dela e a educa, ensinando sobre a cultura, a língua e os costumes. É quase tudo falado em francês, mas com metáforas visuais que se adequam a tudo. Seja explorando a guerra com um pouco de culinária, comparando os rapazes a peixes feios, ou guardando todo o mar num frasco, o mundo de Amélie é vasto, mas nunca assustador. Ela está preparada para o enfrentar. “Little Amélie” um filme que ao mesmo tempo é sobre deuses, sobre a vida, sobre a morte e sobre como uma criança se fascina pelo mundo. É sobre amar, sobre crescer e sobre criar recordações. É também um regresso à infância e um elogio aos adultos que conseguem viver nesse mundo para lá da idade. Mas é principalmente um elogio às crianças que usam a sua própria lógica para compreender um mundo que nem sempre as merece. É uma animação com uma bela mensagem e formato que nos leva de volta a uma fase em que éramos felizes sem noção de como isso muda depressa. Que sirva de lembrete para continuarmos a fazer do mundo um lugar bom para viver e crescer e que a morte chegue apenas quando a magia se esgotar. Filmes Filmes 2025 famíliaNuno Reis