Endless Cookie Nuno Reis, 22 de Dezembro de 202522 de Dezembro de 2025 O filme mais estranho do ano está decidido “Endless Cookie” não é um truque para ter bolachas infinitas. Também não tem nada a ver com navegadores a guardarem informação dos utilizadores. É um filme sobre nada que fala sobre tudo. E começa por explicar como o filme foi financiado e isso obrigou dois irmãos a avançarem com a ideia maluca que tinham. Seth recebe boas notícias: o financiamento do seu filme foi aprovado. A ideia é recolher sete histórias do seu meio-irmão Peter que é dos povos indígienas das First Nations. A mera casualidade de dois irmãos serem de raças diferentes é apelativa, mas a distância é tal que são vidas diferentes. Não há estradas para lá. Enquanto Seth está na vibrante Toronto, Peter vive numa casa moderna, mas está a construir um tipi no meio do nada. E quando finalmente se sentam a tentar gravar essas histórias que reflectiriam as tradições locais, a modernidade – de autocolismos a videojogos – vai interrompendo os contos sobre os anos 80. O resultado é uma animação louca, com muito conteúdo indecifrável, que em parte é documentário, mas em parte é um projecto familiar. As histórias de Pete tão depresa são sobre a vida como um grupo discriminado, onde a pobreza leva à prisão eternizando estereótipos numa profecia auto-realizada, como sobre a sua infância e juventude. Fala de idas às compras, de cães, de acordos injustos sobre as áreas das reservas e de pizza congelada. Apresenta a enorme família, homenageando mesmo quem já partiu, e os mais de doze cães. Em parte está a cumprir os objectivos do projecto, está a contar histórias da vida de Pete, mas o seu valor para o mundo é subjectivo. É um filme que apenas como animação já destoaria dos seus semelhantes, mas por ser documental é impossível de classificar. É uma passagem de histórias entre gerações num novo formato. É um video caseiro feito em animação em que cada membro da família é diferente de todos os outros. É uma crítica à inépcia das autoridades e principalmente, gozar na cara de quem patrocinou o filme e se viu a braços com algo indescritível. Não vamos aprender quase nada e vamos sair mais confusos do que entramos. Mas o documental está lá. Pequenos autocolantes ou graffitis que só um canadiano perceberá. Relatos sobre a vida nos séculos XX e XXI dos povos nativos que tão depressa estão integrados, como querem distância. É um filme que pode ter sido pensado sobre o efeito de alucinogéneos e por muito que se tente esquecer alimentará pesadelos. Tem talvez uns vinte minutos a mais, mas considerando que o projecto para sete meses demorou nove anos, até se fica surpreso que não sejam mais. Se o quiserem ver, primeiro espreitem a longa anterior de Seth, “Asphalt Watches“. Será uma adaptação ao seu estilo único de desenho para minimizar o impacto. Filmes Filmes 2025 famíliaIrmãosNuno Reis