Rental Family Nuno Reis, 10 de Janeiro de 202614 de Janeiro de 2026 Alguém algum dia decidiu dizer que a carreira de Brendan Fraser tinha acabado. Só porque não era um galã a fazer filmes que todos viam, não queria dizer que não entraria em mais filmes. É verdade que andou perdido por uns anos – nenhum filme de jeito por quase 15 anos, sete séries de televisão com sucesso relativo – mas quando voltou, foi directo ao topo. O seu primeiro papel cinematográfico no século XXI nomeado a qualquer prémio foi “” com o qual venceu um Oscar. No ano seguinte apareceu em ““. E aí estava: uma carreira renascida das cinzas. Mas com um estilo completamente diferente. Em “Rental Family” o tema é o isolamento em que a sociedade tem entrado. O Japão, como sempre, leva ao tudo ao extremo. Tem as pessoas mais solitárias do mundo, mas tem também as soluções mais criativas para isso. Aqui não vamos ver em detalhe como funciona essa indústria. Aliás, vamos ser surpreendidos várias vezes com o que é possível. Mas vamos principalmente ver o custo dessa solidão. Do desejo de se ter alguém apenas por uma questão de estatuto, ou “para mostrar”. Phillip Vanderploeg é um americano a vive no Japão. Ele foi como actor, mas o trabalho não tem sido muito. Até que acaba a fazer uma coisa parecida.Vai ser uma espécie de figurante e ser familiar de aluguer. Desde marcar presença num funeral até ser o noivo num casamento ou o pai de uma criança, ele vai começar com receio, mas assume as várias identidades com uma enorme eficiência. Treinou toda a vida para ser outras pessoas. A diferença é que, como actor, todos sabiam que ele estava a fingir. Como familiar, a maioria das pessoas está a ser completamente enganada. O filme é captado com uma simplicidade belíssima. Pelas cores, iluminação e enquadramento focamo-nos nas pessoas e nas suas histórias em vez de nos artifícios visuais. E acontece o mesmo com Phillip. Assim que se habitua ao emprego, começa a gostar do que faz. De falar com as pessoas. Mas nunca deixa de ficar preocupado com os impactos das mentiras. Esta história funcionaria em qualquer local. O Japão apenas chegou primeiro ao problema e à solução. E o protagonista poderia ser qualquer um, mas por ser um estrangeiro tem mais dificuldades em aceitar essa solução. Na verdade nem percebe bem o problema. E por isso mesmo, por vezes esquece a etiqueta e tenta dar um toque pessoal, metendo-se em vários problemas. Esses momentos de comédia e drama alternados dão um toque muito autêntico à história. Nâo encaixa numa caixa ou segue uma fórmula. Apenas vai acontecendo. O dinheiro contrata uma pessoa para ocupar um espaço físico, mas deixa o espiritual em branco. Os japoneses podem achar isso normal, mas por enquanto os outros não. Essa beleza de sermos humanos acima de tudo é que faz o filme funcionar. Num dia aquelas pessoas são estranhas. No outro temos um ficheiro sobre elas. E na semana seguinte são família. E enquanto isso, a agência continua a ver apenas o negócio, o contrato e o compromisso. A gerir calendários de forma a satisfazer todos. E Phillip, já com um japonês aceitável, lá vai navegando uma cultura ainda tão alienígena para ele (e para nós). “Rental Family” não dá as respostas. Nâo grita o que é certo ou errado. Cada cliente pode ser mais nipónico ou mais receptivo ao toque americano. As fugas ao guião podem ser bem ou mal recebidas. Mas vai dando a informação necessária para garantir que chegamos sozinhos à conclusão que nos queria transmitir. Que perdemos a humanidade natural e orgânica da sociedade milenar, mas que ainda a temos no fundo de nós. Ainda nos podemos redimir como indivíduos sociais. É só preciso saber ouvir os outros para evitar cometer os mesmos erros da geração anterior. E evitar que se pague a alguém para nos resolver a vida constantemente. E ainda que o filme seja todo em torno de Fraser, é fundamental dizer que Shannon Mahina Gorman no seu primeiro papel tem mais talento que a maioria dos adultos. Filmes Filmes 2025 famíliaNuno Reis