Entrevista a Jesse Cowell sobre “Where’s My Package?!” Nuno Reis, 16 de Janeiro de 202616 de Janeiro de 2026 Já passou o Natal, mas vem aí o Carnaval e o dia dos namorados, pelo que as compras online continuam ao rubro. Hoje tem estreia em festival a curta “Where’s My Package?!” que tivemos oportunidade de assistir. Na mesma altura entrevistamos o seu realizador, Jesse Cowell – que podem encontrar como @jeskid – sobre as histórias por trás deste projecto e o seu jeito de fazer filmes. A conversa aconteceu num momento particularmente simbólico: logo após a Black Friday e em plena contagem decrescente para o Natal. Um período em que as encomendas online se acumulam, as expectativas disparam e a ansiedade em torno das entregas se torna quase omnipresente. É precisamente por isso que, para Jesse Cowell, este foi o momento certo para lançar um filme centrado nas encomendas perdidas — ou, mais exactamente, na relação emocional que criámos com elas. “É o momento mais crítico, mais stressante”, explica. “E o que eu queria questionar com este filme era porque estamos tão preocupados com coisas, porque procuramos dopamina em tudo o que fazemos e porque colocamos essa responsabilidade em bens materiais que, muitas vezes, poderíamos simplesmente ter ido buscar à loja.” Ao longo da entrevista, Cowell insiste que o tema do filme vai muito além da logística ou das falhas nos serviços de entrega. O que lhe interessa é o comportamento colectivo que se tornou normalizado: a expectativa de que tudo deve estar disponível de imediato, no local exacto e no momento exacto em que queremos. “Vivemos numa cultura que se tornou um pouco pretensiosa”, diz. “Somos todos um pouco egoístas. Sentimos que podemos estalar os dedos e ter tudo a pedido.” Segundo o realizador, essa lógica trouxe conforto e conveniência, mas retirou algo essencial do processo. “Antes, planeávamos. Pensávamos com tempo. Esperávamos. Ficávamos ansiosos. Hoje em dia, temos apenas expectativas.” Quando essas expectativas falham, a frustração é muitas vezes projectada nas entregas, nos estafetas ou nos sistemas de distribuição. Mesmo que o problema tenha começado na falta de planeamento individual. Durante a conversa, surge inevitavelmente a pergunta sobre onde traçar a linha entre comprar online e recorrer às lojas físicas. Cowell reconhece que há situações em que o comércio digital faz todo o sentido, como produtos personalizados ou artigos difíceis de encontrar localmente. Ainda assim, considera que a decisão raramente é neutra. “No fundo, estamos sempre à procura da próxima descarga de dopamina”, afirma, comparando o acto de encomendar online ao uso constante do telemóvel ou das redes sociais. A entrevista ganha uma dimensão mais concreta quando se fala de Portugal. Aqui, a Black Friday foi adoptada sem o contexto cultural do Dia de Acção de Graças, mas com os mesmos efeitos práticos: grandes descontos, compras impulsivas e uma corrida às entregas. “Ouvi ainda ontem alguém dizer: ‘Se não chegar amanhã, tenho de ir à loja’”, conto-lhe. Cowell ri-se. “Esperam um milagre de Natal”, responde. Outro tema central da conversa é a identidade híbrida de Cowell enquanto cineasta e criador de conteúdo online. Acostumado a trabalhar tanto em salas de cinema como em plataformas digitais, ele rejeita a distinção rígida entre “conteúdo” e “cinema”. “Para mim, é tudo narrativa. É tudo contar histórias”, diz. “O meu último filme passou nos cinemas, mas também coloco coisas online. Não vejo essa linha.” A diferença, admite, está na experiência do público. Um público reunido numa sala não é o mesmo que um espectador isolado num ecrã de telemóvel. Ainda assim, o objectivo mantém-se: provocar emoção, gerar reflexão e deixar algo para discutir depois. “A pergunta é sempre a mesma: isto tocou alguém? Deu-lhes algo em que pensar?” A linguagem do filme reflecte essa urgência comunicativa. Não há introduções longas nem preparação gradual. O filme entra directamente “na parte louca”, como lhe digo durante a entrevista. JC aceita o comentário como elogio e explica que essa escolha está intimamente ligada à forma como a atenção mudou nos últimos anos. “Aprendi muito com o TikTok em 2022. A capacidade de atenção das pessoas mudou radicalmente. Hoje temos muito pouco tempo para captar alguém.” Essa influência nota-se sobretudo na montagem inicial: cortes rápidos, alternância constante entre personagens, uma sensação quase frenética. Quando lhe pergunto se isso está ligado ao défice de atenção contemporâneo, a resposta é directa: “Sim, mas também sou eu. É assim que a minha mente funciona.” O filme, explica, foi uma decisão consciente de abraçar essa energia em vez de a suavizar. Ainda assim, a estrutura não é caótica por acaso. À medida que a narrativa avança, o ritmo abranda, os planos tornam-se mais longos e as personagens ganham espaço para falar. “Há uma conclusão a chegar”, diz. “Antes disso, estou a criar impulso.” Falamos também do armazém onde grande parte do filme foi rodado. Um espaço que acaba por se tornar quase uma personagem. Cowell conta que o acesso surgiu de uma relação de proximidade e confiança, construída ao longo do tempo através de trabalhos feitos, muitas vezes, sem orçamento envolvido. “Acredito muito em dar mais do que recebo”, afirma. Graças a essa abertura, conseguiu filmar durante vários fins-de-semana num espaço que, em contexto de produção tradicional, seria incomportável financeiramente. O video desse espaço é dos primeiros no site pessoal. A presença de uma criança no filme — insistente, impaciente, exigente — surge como um dos elementos mais comentados. JC esclarece que a situação foi inspirada numa conversa com a actriz e que nunca teve a intenção de apontar o dedo a uma geração específica. “Isto não é um problema dos jovens. É de todos.” Tal como acontece com os telemóveis, diz, pessoas de 80 anos podem ser tão viciadas como crianças de 12. Quando lhe pergunto se as entregas se tornaram uma espécie de FOMO (fear of missing out) da vida real, a resposta é imediata. “Completamente.” O medo de ficar de fora existe tanto quando se encomenda como quando não se encomenda. E quando algo corre mal, o pensamento torna-se quase conspirativo. “Começamos a achar que alguém nos está a impedir, pessoalmente, de receber a nossa dose de dopamina.” A entrevista termina num tom leve, com uma brincadeira sobre possíveis sequelas e o “Triângulo das Bermudas” das encomendas não reclamadas. Mas a ideia central fica clara: o filme não pretende dar respostas, mas abrir espaço para conversa. “Esse é o meu trabalho”, conclui Cowell. “Criar algo que nos faça falar sobre estas coisas, porque não vão desaparecer.” Entrevistas