Marty Supreme Nuno Reis, 28 de Janeiro de 202630 de Janeiro de 2026 O mundo do ténis de mesa, vulgo pingue-pongue, não é muito excitante. E tirando o extremamente mau “Balls of Fury”, não se pensaria em fazer um filme sobre tal desporto. Então porque teria Timothée Chalamet passado vários anos a treinar-se como jogador para fazer um filme? Enquanto rodava alguns filmes memoráveis que lhe valeram estatuto, preparava-se para um papel diferente. Talvez sobre a personagem mais execrável que já interpretou. Marty vende sapatos. E joga ténis. É um bom vendedor, mas melhor jogador. Até dos melhores do mundo. Tem o ego de quem se acha o melhor do mundo num desporto popular e a fortuna de quem vende sapatos. Este longo filme vai acompanhar o seu lado de desportista, mas também o de vigarista e até onde irá um génio do crime sem escrúpulos. Em suma, como ser um artista nos vários sentidos da palavra. Porque ser tudo isto… é uma arte. O ténis de mesa tem uma coisa de bom. Quando jogado a alto nível, é muito viciante assistir. Chegam a estar bem afastados da mesa e conseguir enviar a bola com precisão milimétrica sem hesitar. Foi para fazer esses planos de jogo parecerem realistas que Chalamet treinou tantos anos. Vários dos seus adversários são interpretados por jogadores a sério – dos melhores do mundo – e o actor tinha de aguentar jogar a esse nível por alguns segundos. Na vertente do jogo somos sugados para a função de espectador e ficamos presos a isso. Marty é muito bom e o némesis que enfrenta tem uma aura muito bem conseguida. Marty também se sabe vender. Apesar de ser um zé-ninguém, tem a pose de quem é alguém. Exige um tratamento que ninguém na modalidade tem e evade-se a absolutamente todas as responsabilidades. Aliás, mete-se em situações piores a cada fuga para a frente. E, ironicamente, tem várias oportunidades de ficar rico e famoso, mas recusa-as por envolverem algum trabalho. É aí que vamos ver o seu nojo de pessoa. Com a mãe, o tio, os colegas de trabalho, a namorada, os amigos que de alguma forma consegue manter… ninguém está livre de ser enganado. O elenco tem uma participação discreta de Fran Dreschner, uma sub-aproveitada Gwyneth Paltrow, um surpreendente Denis O’Leary e tem Odessa A’zion. Esta actriz que já vimos em “Supercool” e tem um papel papel na série “Ghosts” (versão EUA) está desaparecida grande parte do filme, mas tem a verbosidade perfeita para a personagem Rachel. É talvez a única pessoa com estaleca para Marty. Todos os outros ou são vítimas, ou o esmagam. Ela percebe-o e adapta-se. São almas gémeas. Apesar das duas horas e meia é um filme que se vê muito bem. Josh Safdie esceveu, realizou e editou, tendo sido nomeado a Oscar por tudo isso e ainda Melhor Filme. Este foi o ano em que os irmãos Safdie se afirmaram individualmente depois de “Uncut Gems” ter lançado ambos para a fama. Enquanto o irmão Benny fez a biografia “Smashing Machine”, Josh parece ter acertado em grande ao fazer “Marty Supreme”. Um filme que se gosta muito, sobre uma pessoa que não se gosta nada. E para os espectadores da velha guarda, ainda com o bonus de ter Abel Ferrara no elenco e um cameo de Jonathan Demme. Filmes Filmes 2025 BiografiaNuno Reisplano inteligenteténis de mesa