Fréwaka Nuno Reis, 30 de Janeiro de 20262 de Fevereiro de 2026 O título devia ter servido de alerta. Apesar de parecer uma produção das ilhas britânicas, isso não significa que usem inglês. Tem o pequeno detalhe de falarem em gaélico irlandês. “Fréwaka” vai-nos levar para uma Irlanda remota, campestre e profunda, onde nem os telemóveis funcionam sempre. Shoo teve uma relação complicada com a mãe. Quando esta morre, ela utiliza o pretexto de ter de ir trabalhar para uma povoação distante para não ter de lidar com os pertences. Deixa a namorada estrangeira a fazer a seleção com a simples indicação “deita tudo fora” e mete-se num autocarro para nenhures. Seria um trabalho de poucas semanas, prestação de cuidados a Peig, uma senhora que teve alta hospitalar e ainda não pode ficar sozinha. A aldeia onde vai parar não é hospitaleira, não tem atividades e Peig tem um feitio muito próprio. Shoo está acostumada a gente assim e dá o seu melhor para ser amável, mas algo se passa. Será tudo demência ou a casa tem algo mais? O filme começa com dois fenómenos invulgares que dão o mote para o que se segue. São estes uma noiva desaparecida no dia do casamento (Peig) e uma mulher que se enforca (mãe de Shoo). A partir daí apesar de haver um ou outro jogo visual e de o som nunca permitir descontrair, é uma narrativa muito controlada. Uma bela fotografia, diálogos corriqueiros em gaélico, mas sempre a acumular tensão. Durante uma hora é apenas um drama sobre a velhice, a demência e a paranóia. Peig sabe o que tem. Shoo, atendendo ao que a mãe fez, pode não estar traumatizada, mas pode sofrer de esquizofrenia que se revela nesta idade. E é isso que temos de acreditar. Porque a alternativa é demasiado do folk local para acompanharmos na devida dimensão. Quando dá a volta para o horror mais convencional, podia chegar a um final simples e rápido. Mas prolonga por meia hora. Sem muito de novo a dizer, mas com um poder visual que prende. Queremos saber como acaba (apesar de se adivinhar) e queremos saber porquê. É um filme que certamente funciona melhor com os irlandeses por estarem contextualizados, mas que se podem ver em qualquer parte do mundo. Tem muitos temas transversais à sociedade global e até semelhanças a alguns mitos portugueses. Sabe deslizar entre o mundano, o tradicional e o sobrenatural sem nos perder pelo caminho e isso permitiu chegar mais longe na sua mensagem. Mas não é para qualquer um. Quem procura apenas terror achará que devia ter menos um quarto de hora e ser mais directo. Aqui o que temos é uma oportunidade para pensar a que talvez os jovens não dêem valor. Peig avisa disso. É porque ainda não pensam na morte… Filmes Filmes 2025 folcloreMOTELx 2024Nuno Reisvelhice