100 Nights of Hero Nuno Reis, 1 de Dezembro de 202517 de Janeiro de 2026 Muito raramente um filme consegue convencer desde a primeira cena. “100 Nights of Hero” começa com o casamento de Agnes. Visualmente está claro que vai ser diferente. Só que o filme não é sobre ela. Não a maioria. Depois muda para outra camada e vamos conhecer Kiddo, a deusa que criou o mundo. O filme também não é sobre ela. O pai Birdman acha que ela fez um mau trabalho – dando demasiado livre arbítrio aos humanos, aquele seres inferiores – e vai imiscuir-se e fazer com que ele seja louvado a todos os momentos. Também não é sobre ele, ainda que seja em seu nome que a malvadez é perpretada. Finalmente vamos conhecer Cherry, a nossa protagonista. Tem tudo que qualquer homem procuraria numa mulher… excepto o próprio marido. Está dado o mote para um filme que é de, com, para e sobre mulheres. A vida de Cherry no castelo está cheia de luxos. Só que Jerome, o marido, não a deseja e assim é difícil ela cumprir a sua única obrigação como mulher e dar-lhe herdeiros. A vida fica ainda mais complicada quando Jerome desafia o seu amigo, o galante Manfred, para passar uns dias no castelo e tentar seduzir a esposa que Jerome diz ser-lhe totalmente fiel. Manfred, que consegue seduzir qualquer mulher, acha demasiado fácil Jerome passar cem dias fora. O seu sucesso significaria a morte de Cherry por traição. Ele não estava a contar era com a dama de companhia de Cherry, a ardilosa Hero. Não só consegue evitar que os dois fiquem sozinhos, como, à semelhança de Scheherazade, tem o dom da palavra e vai tornar cada longo dia num breve instante. Só que serão cem noites em vez das mil e uma. E tudo isso com uma só história. Este filme podia ter sido um qualquer conto de fadas em tempos idos. Só que o universo foi criado de raíz, com novas divindades, novas luas, novos instrumentos… São mais possibilidades se forem bem aproveitadas. Imensas mais dificuldades em tentar marcar a diferença sem ser uma distração.E funcionou. O facto de termos várias estórias em paralelo não dispersa. Até ajuda a perceber os elementos comuns. Visualmente deixaria para os especialistas a análise detalhada, mas há imensos simbolismos nas pequenas coisas. Guarda-roupa, adereços, decoração, até alimentos. Não se pouparam em criar algo novo. Há um confronto claro entre o homem conquistador – viril, trono nu, caçador e coberto de sangue – e a mulher alvo. Casta, inocente, indefesa. Mas há também outra mulher. Uma guardiã. Que sabe mais do que aparenta. Que usa a linguagem como arma e antecipa as jogadas do adversário. E vamos ver que como ela existem mais. E que os homens podem controlar algumas por muito tempo, mas não todas, nem para sempre. E vamos aprender que as melhoras histórias a contar para influenciar as próximas gerações, não são ficção, mas as de mulheres reais. De “bruxas” queimadas por fazerem coisas como pensar, opinar e ler ou escrever. Por cada uma que seja silenciada, dez se erguerão. É um filme que convence do início ao fim. Visualmente está perfeito. A banda sonora completamente adequada. Os toques de humor nos momentos certos. Sabe puxar à lágrima sem ser lamechas, e não anda com artifícios a mudar o rumo. O que promete, cumpre. Tem imensas mulheres de destaque como a rainha do terror como estrela, ou Felicity Jones e Charli XCX em pequenos papéis. A Hero do título é que está a despontar para o fantástico com uma incrível série de títulos e personagens. No papel masculino foram buscar o galã (até já foi um príncipe de contos de fadas) Nicholas Galitzine. Todos enormes e escolhas perfeitas. Mesmo Safia Oakley-Green (que também entrou em ““) como a deusa, tem apenas dez segundos de filme e faz do papel seu. Mas é principalmente uma ode às mulheres que ajudam, às que inspiram, às que perturbam o status quo e às que causam mudanças. É para ser visto por todas as mulheres que queiram mudar o mundo, e pelos homens que as queiram ajudar. Não me parece que seja filme para vencer muitos prémios, mas para já é um dos meus favoritos do ano. Filmes Filmes 2025 BruxariacasamentoConto de FadasMulher forteMulheresNuno Reis