31 Candles Nuno Reis, 2 de Novembro de 20252 de Novembro de 2025 Tirando Woody Allen, não tem sido frequente vermos comédias judaicas por Portugal. Este ano o cinema independente nova-iorquino tem proporcionado vários exemplos, vamos acreditar que algum título, algum dia, cá chegue. E apesar de parecer um contrasenso, trago uma sugestão para a época natalícia que se avizinha. Um filme que ridiculariza algumas das tradições judaicas, sem desrespeitar o que simbolizam. Jonah Feingold escreveu, dirigiu e protagonizou esta comédia romântica. Ele tem feito esse trabalho triplo por diversas vezes. Aqui, mesmo sem conhecer os filmes anteriores, percebemos que satiriza o trabalho que o próprio fez. A sua personagem é Leo Kadner, um realizador judeu que faz romances natalícios ao estilo Hallmark (para nós seria do AXN White). Também Feingold fez filmes desses e percebe a ironia. Leo não teve o tradicional bar mitzvah que simboliza a entrada na vida adulta. Não se sente menos judeu por isso. Mas quando reencontra a sua primeira paixão, Eva Shapiro, e descobre que ela faz preparação de crianças para a cerimónia, decide que é chegada a hora de também a celebrar. Quer passar tempo com ela numa tentativa de reacender uma chama que não sabe se é recíproca. Leo é um protagonista simpático. Por um lado é um adulto e tem um emprego. Por outro, sente-se incompleto como pessoa. Falta a componente sentimental. E por ter uns redondos trinta anos, sente que está atrasado. É fácil fazer o paralelismo com a sociedade de hoje, em que por muito que se atinja, parece sempre que falta algo para as expectativas dos outros. Leo sente que Eva Shapiro (usa muito os dois nomes) é a peça que lhe falta. Mas o estudo da religião e das tradições que vai fazendo no seu estratagema fazem com que fique mais satisfeito com o que tem. Que se encontre. O filme tem apenas 90 minutos e um ritmo leve. Tem um baixo orçamento e cenários simples, o que coloca o foco nas personagens e no lado humano, sem se perder em artifícios. Tem uma variedade de cenas típicas, com diálogos ricos e inteligentes. E por ter uma duração de algumas semanas, usa uma estrutura episódica que expõe a lenta mas constante evolução do protagonista. A evolução não é tão óbvia com Eva. Apesar de este emprego ser apenas um ganha-pão até conseguir uma oportunidade como actriz, é uma pessoa mais madura. Mais conhecedora do mundo e do que deseja para o futuro, que está a trabalhar para isso. A escolha da comediante Sarah Coffey para o papel feminino principal foi excelente. Tem algo de único (e o argumento aproveita isso), tem o timing certo, e entrega comentários certeiros. Muito do que é dito parece ter sido mais improviso entre dois grandes comediantes que guião escrito para dois actores. O filme tem também algumas personagens arrogantes que dispensaria. Só ajudam a definir o que Leo não quer ser. “31 Candles” é um filme completo. Pega numa fórmula convencional, em alguns elementos inesperados, e entrega tudo o que pode. Ajuda a refletir sobre a vida, sobre amores talvez não correspondidos e sobre segundas oportunidades. Acima de tudo, ajuda a estarmos satisfeitos com o que já fizemos e a aceitar que a vida é uma maratona. Não há atalhos ou tempos definidos para cada etapa. O importante é aguentar até ao fim e ter apoios com quem se possa contar ao longo do caminho. Filmes Filmes 2025 Campo de fériasNuno ReisPrimeiro Amor