8 1/2 Nuno Reis, 6 de Julho de 201120 de Novembro de 2025 Por entre as imensas pessoas que fazem um filme, o realizador é aquele ente miserioso e todo-poderoso que pouco faz e tudo sabe. É dele a visão e a responsabilidade sobre o filme. E o que acontecerá se ele simplesmente não souber o que está a fazer? Depois de sete filmes e meio, Fellini escolhe como tema o dilema de um realizador perdido nas próprias memórias e incapaz de levar o filme avante. Guido tem a equipa pronta a filmar, as estrelas estão presentes ou prestes a chegar e ele não sabe o papel de nenhuma. Não sabe o que vai filmar nem onde, mas já gastou o orçamento na construção de uma imponente nave espacial e por ser em parte auto-biográfico tem uma forte componente católica. De que forma combinam padres e extra-terrestres? Não faz ideia, mas isso não importa. Entre os problemas que o assombram estão aqueles de saias. A esposa que o vem visitar, a amante que o vem visitar, as memórias da mãe e das mulheres do seu passado, a britânica namorada do amigo, a actriz francesa, a actriz italiana… Um homem não aguenta tudo isso. Que o filme de Fellini é auto-biográfico ninguém duvida. Por isso é que trata pelo nome Claudia (Cardinale), Rossella (Falk), Madeleine (Lebeau), (Mario) Conocchia, Bruno (Agostini), Cesarino (Picardi), Mario (Pisu) e Nadine (Nadia Sanders). São pessoas que fazem parte da sua vida e com quem faz filmes, e é deles a responsabilidade de Guido estar louco. Se toda a loucura fosse assim tão profícua, aceitaria a loucura de bom gosto! Fala-se das memórias de infância, do pecado, do cinema, das relações amorosas, de tratamentos termais… só a nave espacial não tem um significado linear, é apenas um enorme objecto que simboliza a fuga para um lugar longínquo e desconhecido. Ou onde se seja desconhecido. Não vemos um homem a caminhar para a loucura. Ele já estava bastante embrenhado nela antes do filme começar. Com a aproximação do sub-filme a pressão aumenta e isso causa reacções compreensíveis. Só que a única que o compreende é Claudia, diva maior do cinema italiano e a única capaz de o salvar com o perdão. A imprensa que na altura respeitava os artistas aparece já no final, quando não há volta a dar. Terá Guido capacidade de assumir o impensável ou conseguirá prolongar a mentira para além do humanamente possível? Se algum filme assumidamente confuso pode ser comprensível, é este. Consegue-se ver e adorar vendo superficialmente, como mero filme para entretenimento. Com o passar do tempo, e aprendendo mais de Cinema, mais de Fellini, mais sobre a vida e mais visionamentos de “Oito e Meio”, os detalhes brilhantes aparecerão do meio do negro e branco. Filmes Filmes 1960's Cinema Sobre CinemaMulheresNuno Reis