A Complete Unknown Nuno Reis, 23 de Junho de 202528 de Novembro de 2025 Quando se trata de realizar biografias de músicos, o primeiro nome na minha lista seria James Mangold. Já vi biografias de artistas a solo e de bandas, e nunca vi melhor equilíbrio entre veracidade histórica, respeito pela personagem, e arte narrativa que em “Walk the Line“. Ao saber que Mangold ia pegar na vida de Dylan, a grande dúvida foi como contar uma vida invulgar, mas bastante livre de polémicas. Teria conteúdo para um obra desta dimensão? Como nenhum homem é uma ilha, não podemos pensar que um vencedor de Nobel com 60 anos de carreira com impacto mundial tem uma vida desinteressante. Dylan não chega, mas a sua envolvente é toda outra história. Para começar, Dylan é de uma época dourada. Em que os maiores músicos da era andavam em digressão e tocavam nos mesmos eventos, uns após os outros. Famosos e adorados, mas não estrelas reclusas em concertos milionários a solo como vemos hoje em dia. Se na biografia de Johnny Cash ouvimos Elvis Presley, Roy Orbinson e Jerry Lee Lewis, Dylan partilha palcos com Pete Seeger, Joan Baez, Bobby Neuwirth e claro, Johnny Cash. Sem falar da influência de Woody Guthrie. Podem parecer nomes menores que os anteriormente mencionados, mas é uma questão de género e de época. Dylan surgiu nos anos 60, uma época louca para os Estados Unidos em que os líderes morais e políticos eram mortos, em que o sentimento anti-guerra dominava as conversas e a mudança era necessária. Aquele desconhecido tinha uma voz diferente, um estilo diferente e cantava músicas diferentes. Quando o público desesperava por mudança, ele foi a voz da mudança. Não só com “the times they are a-changin’”, mas muitas outras. E fez algo impensável: desafiou as barreiras dos géneros musicais, adaptando estilos, instrumentos e até pessoas ao que queria ouvir nas suas músicas. Nem é preciso definir o impacto de Dylan como cantor. Olhando apenas para o que fez como compositor para terceiros, estava a mudar o panorama musical. O filme peca um pouco porque falta o drama e intriga da realidade. Foi-lhe dada uma namorada fictícia e fuma muito, mas é uma vida pessoal demasiado normal para encher uma longa. Temos de nos focar no artista. E é importante dizer que fomos abençoados com muito apoio dos originais para que o filme fosse completo. Bob Dylan e Joan Baez colaboraram com o realizador e elenco. Professores de canto tornaram os vários actores em músicos. Todos dizem que Timothée Chalamet se tornou Dylan é concordo. Chalamet tornou-se Dylan até na vida pessoal. Mas Monica Barbaro como Baez, Edward Norton como Seeger e Boyd Holbrook como Cash, não desiludem. Musicalmente, tudo o que ouvimos é um deleite. Só lamento dizer que Elle Fanning é completamente inútil. Ser listada como a actriz principal do filme quando uma semana depois nem nos lembramos que faz parte do elenco, é irónico. Para terminar, tenho um desafio para os leitores. No cinema não pediria isto, mas agora que o filme está disponível nas televisões, que tal não o ver, e apenas ouvir? Aceito que se veja os primeiros 10 a 15 minutos, quando estamos a ganhar contexto, mas a partir daí podemos ignorar o filme e apenas desfrutar da música. Nunca fui fã de ver concertos em cinema, mas por algum motivo ver um filme apenas pela música agora parece-me algo lógico. Filmes Filmes 2024 BiografiaMúsicaNuno ReisOscares 2025