A Little Prayer Nuno Reis, 25 de Dezembro de 202514 de Janeiro de 2026 Há filmes que toda a gente quer ver. Outros, que o marketing diz que queremos ver. Finalmente há os que são vistos por acaso. E uma das grandes magias do Cinema é quando nos dá o filme certo no momento certo. “A Little Prayer” toca em vários temas ao de leve. Para uma maioria será um filme banal. Mas no momento certo, será uma chamada de atenção eficaz. O filme começa de forma muito pausada. Vamos planar por entre as árvores num subúrbio tranquilo onde apenas uma música perturba o som dos pássaros. A primeira cena em que vemos pessoas é com Tammy deitada ao lado de David. Um jovem casal, parecem felizes. Tammy é interpretada por Jane Levy, actriz que reconheço imediatamente, mas que nunca me lembro o nome. Os trabalhos dela costumam deixar-me bem disposto pois ou são ligeiros ou são de terror. David parece ter aterrado vestido e ainda estar meio adormecido, enquanto Tammy está com vontade de se levantar. Assim o faz e então o filme arranca. Vamos conhecer o protagonista. Bill é um senhor de certa idade e bom coração. O pequeno diálogo que trocam ao pequeno-almoço vai-nos ensinar algo que eles só verbalizam no final do filme: são almas gémeas. Não no sentido romântico que se costuma dar, mas no de pensarem de forma semelhante e terem a mesma visão da vida. Entendem-se e completam-se. Tiram prazer das mesmas pequenas coisas. A trama é sobre como os mesmos fenómenos os afectam de forma diferente. Vamos acompanhar e ouvir principalmente Bill, mas também vemos como afectam Tammy. E ao fim de hora e meia, vamos estar com vontade os abraçar, adoptar, e proteger do mundo. Dias depois nem nos lembraremos sobre que era o filme, mas talvez tenha feito um bom trabalho de bastidores e nos tenha transformado em melhores pessoas só por estarmos em contacto com eles. Curioso como Angus MacLachlan dirigiu o próprio argumento. Ele que normalmente cede a outros (por exemplo, escreveu ““) soube que tinha aqui algo especial e quis fazer do início ao fim. Fez muito bem. Bill cumpre os deveres de pai, mas é também o patrão do filho e veterano tal como ele. Conhece o filho como ninguém e entre indirectas e directas tenta guiá-lo. David Strathairn está a entrar nos melhores anos da sua carreira. No último semestre vi três filmes completamente diferentes com ele e tem estado em grande, mas este é o melhor desempenho que nos deu em pelo menos uma década. É verdade que não tem tido oportunidade em grandes filmes, mas este também não era sonante e com uma personagem relativamente banal entrega tudo de forma subliminar. Ainda que já não deva ir a tempo de corrigir os filhos, é o avô que todos queríamos ter. Jane Levy idem. Normalmente entregam-lhe o protagonismo, aqui deixam fermentar. Parece simpática e apática, mas aos poucos vamos percebendo as camadas. Até que chegam os desafios e vemos como é forte. Frágil, mas heróica. Carrega o mundo nos ombros sem se lamentar ou pedir ajuda. Só mesmo no final liberta na voz o que levava no coração. Uma cena brutal e muito bem escrita que é a que levamos do filme. Em que Levy fala durante mais de dois minutos sem um único corte de câmara. Incrível. Will Pullen está bem, Celia Weston igual a ela mesma, Anna Camp muito diferente do que esperavamos e Dascha Polanco na personagem mais genérica que fez em muito tempo. Os outro dois é que importam e o filme podia não ter mais ninguém que não seria pior. É um filme que marca se estivermos dispostos a isso. Que nos alerta se estivermos a passar por aquilo ou conhecermos alguém assim. Que dá imensa vontade e motivação de mudar de vida para melhor, mesmo que seja difícil. Faz com que se deseje encontrar alguém que nos comprenda e que se queira ajudar o próximo. Ao escrever fiquei com vontade de ir rever. Filmes Filmes 2025 casamentofamíliaNuno ReisTraição