A Useful Ghost Nuno Reis, 13 de Janeiro de 202613 de Janeiro de 2026 Um fantasma utilitário que se torna útil, ou um aspirador que limpa a história. Já é prática comum termos em casa aspiradores inteligentes que limpam a casa por nós, mas quantos deles nos visitariam no hospital? O cinema fantástico tailandês está carregado de fantasmas. Se disser que a história também envolve aspiradores e frigoríficos, se calhar pensam que é uma comédia em que apanham os espíritos com um aspirador e os guardam no frio. Nada disso. Isso seria uma comédia previsível com pés e cabeça. Se há coisa que este filme faz é surpreender-nos a cada oportunidade. Vai incluir pés e cabeças, mas de outras formas. Tudo começa com um mural que vai sendo danificado e liberta pó no ar. Esse pó vai levar um cidadão a comprar um aspirador que, pela demonstração que vemos na loja, não é muito eficaz. O que ele percebe ao chegar a casa.Liga para a assistência e o técnico que lhe aparece pergunta logo “conhece alguém que tenha morrido? É que anda por aí uma onde de aspiradores possuídos” (não é uma citação ipsis verbis, foram tomadas liberdades criativas). Está dado o mote para uma tal amálgama de temas que nem tenho a certeza do género em que se encaixa. Vamos começar pelo território normal de terror. Uma fábrica é assombrada por um fantasma e fechada pela inspecção que estava a medir o pó no ar pois isso faz mal à saúde. A nora da dona da fábrica morre por complicações após o parto. Vai-se tornar num fantasma, mas decide possuir um aspirador para estar perto do marido. Isso dá-lhe oportunidade de conhecer um ministro e tudo. Ao longo da trama, talvez a primeira hora, é uma comédia do absurdo sobre a relação. Um ou outro tema secundário, mas principalmente em tons de comédia e vários momentos ridículos. De repente dá uma cambalhota. Começa a ter mais terror e mensagens pouco disfarçadas. As críticas feitas aos fantasmas começam a ser aplicáveis a outros. Como o filho homossexual que só é aceite pela família quando a relação significa novos mercados para exportação. Ou os choques electrícos para limpar a memória de forma selectivamente sobre alguns temas. Temas como os protestos de 2010 (dois meses de manifestações pela queda do governo que resultaram em 80 mortes) que devem ser esquecidos a todo o custo. Tudo isso com tempo para criticar o absurdo de algumas leis “escritas a pensar nos vivos” e os direitos da população fantasma no geral. Quem não vota, não opina. Ter dois fios condutores ajuda a manter a narrativa envolvente, mas ainda assim é um filme longo e com um estilo próprio. Por vezes torna-se penoso de assistir. Especialmente por ser uma cinematografia já de si muito peculiar e que aqui chega ao extremo. Visualmente tem planos muito inteligentes, mas são tantas ideias ao mesmo tempo – e algumas tão metafóricas – que se torna complicado acompanhar, reter, e ainda interpretar toda a informação. A intenção era escapar ao lápis azul e funcionou. Quem for ver este filme tem de ir com atenção máxima e limpar a agenda antes e depois pois é muito conteúdo para assimilar. Filmes Filmes 2025 CensuraCrise PolíticadoençafamíliaFantasmasNuno Reis