Amo-te Imenso (2024) Nuno Reis, 21 de Junho de 202526 de Dezembro de 2025 Com a estreia de “Hotel Amor”, é mais do que adequado espreitar a obra anterior de Hermano Moreira. O realizador passou despercebido nas curtas, mas agora apresenta-nos duas longas em dois anos, um feito muito difícil no mercado nacional. Este pequeno filme que teve uma passagem discreta pelos cinemas tanto cá como lá (péssima escolha de data, no quinquagésimo aniversário do 25 de Abril) acompanha um brasileiro acabado de chegar a Portugal. Ele vinha só para fazer um estágio, mas apaixona-se por Lisboa e por uma Maria. Enquanto os créditos iniciais passam, vamos pensando que é uma co-produção luso-brasileira ao estilo de “vamos fazer umas férias e dizer que é trabalho” ou, ainda pior, “vamos promover Lisboa para turismo brasileiro”. O filme começa a ter de enfrentar todo o preconceito contra o cinema nacional, contra as co-produções despropositadas, contra tudo e todos. E ao início corre mal. Personagens muito estereotipadas, um argumento previsível com frases feitas, e algumas interpretações francamente más. Então as primeiras cenas de Filipa Pinto como Maria – que supostamente seria a estrela – são de fugir. Mas há algo no olhar de Fábio (Guilherme Gorski) que cativa. Uma tristeza como as próprias personagens notam. É isso que nos faz dar mais algum tempo ao filme. “Amo-te Imenso” não facilita e vai abusar dessa boa vontade ao levar-nos pelos destinos mais típicos para turista. É aí que Maria começa a desabrochar. A fachada brusca e desagradável que estávamos a ver revela um outro lado. Também muito portuguesa, mas mais conversadora, com conteúdo, diria até interessante. O mais surpreendente é que foi escrita de acordo com a idade que tem, não na perspectiva de um homem mais velho que não sabe como pensa e age uma jovem mulher. Fábio vai revelando muito pouco (é um homem de muitos segredos), mas continua a ser confiável. E à medida que a relação evolui, vai-nos ser quase pedido que tomemos partidos. Acreditar no que o homem dos segredos diz, ou nas provas que o filme vai dando e que Maria descobre? Inclui alguns momentos dramáticos que quase exageram, mas sabem os limites. O início do filme é muito fraco. São personagens inúteis com diálogos falsos. Quem não estiver familiarizado com a co-habitação vai ficar ainda mais surpreso com as relações próximas criadas entre estranhos em tão pouco tempo. Quando o filme se começa a focar na dupla fica muito mais certeiro e eficaz. Temos uns três quartos de hora sem marketing, sem floreados, sem interpretações menores. No final voltam a interagir com os vizinhos e aí já lhes damos valor. Melhores diálogos, um propósito para cada cena. Pistas que se juntam e fazem sentido. E pequenos detalhes que mostram como o tempo passou para todos, sem nos impingir o “viveram felizes para sempre” dos contos de fadas. Continuo a ter alguns anti-corpos quando a este género de filmes. Estou há cinco anos para escrever sobre “Alguém Como Eu”! Contudo, a interacção com os brasileiros é uma evolução natural para o nosso cinema. Uma oportunidade de aprendermos com quem tem uma indústria cinematográfica a sério, e também de nos darmos a conhecer no lado ocidental do Atlântico em vez de simplesmente importarmos conteúdo audiovisual. É um cinema de consumo fácil pelo público que mostra a nossa identidade cultural e património. Sem pretensões intelectuais ou desperdícios orçamentais. Filmes Filmes 2024 namoroNuno Reisturismo