Anemone Nuno Reis, 27 de Novembro de 202528 de Novembro de 2025 Quando um filme tem Daniel Day-Lewis, é favorito imediato aos prémios. Em especial se o actor saiu da reforma auto-imposta em 2017 para o fazer. Que convite irrecusável terá recebido? Claro que tem menos importância quando sabemos que foi para estrelar no primeiro filme do filho, um pintor a experimentar outras artes visuais. “Anemone” foi escrito pela dupla e realizado pelo filho que juntou ao elenco Samantha Morton e Sean Bean. Ter contactos no meio é bom, mas trunfos destes valorizam logo o filme e atraem a atenção. Sendo um filme muito recente e que não apela ao grande público, entrei sem saber ao que ia. Para poupar essa surpresa aos leitores, posso adiantar que o filme começa com várias bandeiras irlandesas, sodlados e mortes. Uma referência aos The Troubles. A história tem lugar depois disso, mas quando ainda há mais do que fantasmas. Jem parte em busca do irmão, Ray, que vive no meio do nada. O filho que Ray abandonou está a passar um mau momento e seria importante falar com alguém que tenha passado por algo semelhante. Só que o reencontro de irmãos vai despertar boas memórias e alguns traumas. E vai ser sobre esse realinhamento de filosofias de vida e debate de posições que nos vamos focar. É fácil formar uma ideia correcta do filme apenas pelos primeiros minutos. Nos pontos positivos tem bons planos, uma incrível fotografia, uma interpretação soberba de Day-Lewis com monólogos em que a câmara fica tão fascinada que quase nem corta. Nos pontos negativos é evidente que a edição é fraca, e por várias vezes a música sobrepõe-se ao filme. Depois, há a questão do argumento. A temática era importante. Já temos distanciamento temporal suficiente para se falar desse longo conflito, mas não o suficente para estar esquecido. A perspectiva irlandesa já teve algumas obras, mas a perspectiva inglesa era uma novidade. E é isso que temos do início ao fim. Por vezes uma dança inesperada, outras vezes um segredo. Mas o tom geral não muda. É um filme com ambição e que tinha os ingredientes para ser bom. Mas Ronan acusou a idade e inexperiência e deixou-se deslumbrar pelo que podia fazer em vez de se focar no que tinha de fazer. Focou-se nos veteranos, ignorando a perspectiva jovem que tem apenas três cenas com substância. Entrou por metáforas sem sentido, e até o título (uma referência às flores – anêmonas – em torno da casa) foi demasiado rebuscado e sem sentido. E não me façam falar do ectoplasma que aparece! Não vai ser um filme para rever ou recordar. O pai pode voltar para a reforma. Filmes Filmes 2025 IrmãosIsolamentoNuno Reispassado secretoVeterano de Guerra