Anniversary Nuno Reis, 24 de Dezembro de 202526 de Dezembro de 2025 Este texto custou a sair, mas estando o Natal aqui e significando isso um jantar em família, era importante pensar em “Anniversary”, um dos filmes mais ignorados do ano, mas dos mais cruéis e provocadores. Um filme que nos alerta como uma pessoa ou uma ideia podem ter impactos duradouros que lhe escapam ao controlo. E que tem lugar principalmente em festas de aniversário, quando a família se reencontra. Tudo começa com um aniversário. Ellen e Paul celebram 25 anos de matrimónio e a família reúne-se para celebrar. As filhas estão lá e também o filho com a sua nova namorada, Liz. Só que ela não é apenas uma estranha que cai na dinâmica familiar. Ela foi aluna de Ellen. Uma aluna com uma filosofia disruptiva que acabou expulsa da universidade por isso. Ellen só consegue pensar que o namoro é uma farsa para a desestabilizar, mas é algo mais. Liz está a escrever um livro com os seus ideais e prestes a abalar o mundo. Poderia dizer que temos dois filmes num. Com base na sinopse, temos um drama familiar que poderia evoluir para thriller. O segundo filme é a parte preocupante. Mostra de forma clara como uma ideia consegue desestabilizar uma sociedade inteira. Como pessoas inteligentes ficam incapazes de reagir quando a maioria ignorante se acha detentora da razão e oprime as vozes discordantes por meios extremos. Como a democracia e até a civilização podem desaparecer num par de anos. No elenco temos uma Diane Lane imponente. Detentora da razão sem ser altiva, que fica ofendida, mas consegue filtrar os pensamentos antes de chegarem à boca. É o motor do filme. Ao seu lado temos um sólido Kyle Chandler como o marido que é informado, mas tenta manter-se neutro na discussão a bem da harmonia familiar. Temos um incrível Dylan O’Brien como o filho Josh, aspirante a escritor que acaba seduzido pelo intelecto da namorada e gravita para longe dos ideais da mãe até um ponto de não-retorno. Nâo só envelhece perante os nossos olhos, como muda aparência e o olhar até ser irreconhecível. Menção também para as filhas interpretadas por Madeline Brewer, Zoey Deutch e Mckenna Grace. Irmãs com muita intimidade e um aplauso especial para a versatilidade de Deutch que tem duas cenas de especial valor. Fora da família temos a tal Elizabeth que Ellen vê como a personificação do mal e Phoebe Dynevor é convincente nesse papel. Faz-se de amável quando está a criar uma revolução. Até que fica eclipsada pelo movimento que criou e foge da ribalta, deixando as suas ideias tratarem do caos que queria criar. Tem pouco tempo em tela, tem poucos diálogos, mas tem presença. Como uma assombração. No filme há momentos que causam profundo pavor pelo simples facto de não serem ficção. É uma realidade demasiado próxima. Começa com uma bandeira. Depois é acabar com as eleições para ter um sistema de partido único. Aumentar a monitorização de tudo o que acontece online. Impôr um recolher obrigatório, proibir protestos, vigilância com drones nas propriedades privadas, censos que querem extrair informações a mais… Em suma, um total desrespeito pelo indivíduo. E enquanto normalmente nos filmes temos um herói que vai derrubar o regime, aqui ninguém nos virá salvar. Só resta esperar até todos sucumbirem ou serem levados. O fim chegou. O final, na ausência de heróis, é sobre cada um fazer o que pode. Mesmo que sem hipóteses de vencer, mesmo que não inspire ninguém. Fazer o que é preciso para viver consigo mesmo. Mesmo tendo visto vários filmes violentos, este é o que mais pode traumatizar. Portanto, cuidado com os temas à mesa na consoada. Nunca se sabe o que pode levar ao fim da civilização. E por favor, não destruam a democracia por vingança. Filmes Filmes 2025 famíliaNuno ReisPolítica