Armand Nuno Reis, 20 de Fevereiro de 202511 de Janeiro de 2026 Alguns filmes avisam desde o início que vão ser diferentes. “Armand” é enganador pois começa muito tranquilo e silencioso. Quase quinze minutos de tranquilidade. Um típico filme nórdico para quem estiver acostumado à cinematografia. Silêncios muito eficazes e algo perturbadores. Até que se torna claro porquê. Estamos numa escola e esse tipo de edifício não é silencioso. Nunca. Nesta escola algum do pessoal docente está em pânico com um evento. Não sabemos o que é, mas eles não falam de outra coisa. E ninguém quer dar a cara ou dizer a palavra errada. Até que os pais começam a chegar. Primeiro chega Elisabeth, viúva, depois chega o casal Sarah e Anders. E então vamos saber o que se passou. Um evento problemático que, só por ser falado, vai ter consequências duradouras. “Armand” podia ter sido apenas um drama. Focar-se nas diferenças de educação dadas em cada lar, no papel da escola na formação e defesa das crianças, na questão da responsabilidade e responsabilização. O filme podia ter sido um simples onflito civilizado entre opiniões contraditórias. Durante quase uma hora é isso. Um drama de combustão lenta com conversas civilizadas e paninhos quentes. Até que os nervos de Elisabeth vencem. Tem um ataque de riso. A partir daí, o que temos não é só um filme. Continuamos a ter a narrativa sobre as crianças, mas temos um espectáculo individual de Renate Reinsve que se transfigura. Ao longo do filme vai demonstrar não só emoções, mas todo um leque de talentos. Deslumbrante e hipnotizante. Portanto temos dois filmes. O aparente é assente na tensão contida. Uma tarde de “reunião de pais”, que vai acrescentando camadas de culpa e suspeita. Nem vemos as crianças, nem ouvimos as suas versões. Essa ausência dá margem para se tomar lados com base em experièncias pessoais ou meras opiniões. Termos apenas as versões adultas e os relatos serem alterados constantemente cria uma lacuna narrativa que expõe temas sociais. É a escola com vida própria. São mais adultos que se juntam à confusão. Uma professora a quem pedem para tomar as rédeas da conversa, mas que além de ser inexperiente não consegue ser indiferente. Só isto teria dado um filmão. O outro filme, que se desenrola em paralelo, é uma performance individual (ou quase) de Renate Reinsve. A melhor actriz de Cannes em 2021 aqui tem um desempenho mais que memorável. No filme normal Elisabeth já é uma personagem complexa. Reinsve consegue transmitir com olhares, silêncios e explosões emocionais, o peso de uma acusação capaz de destruir vidas. Mas no seu palco individual, é difícil encontrar palavras. É um filme experimental, mesmo surreal. A estrela ofusca todo o elenco que até é competente no que faz. Algumas cenas tentam dividir o protagonismo, mas é quase uma droga psicadélica leve. Depois de uma amostra, queremos menos normal e mais especial. Claro que fazer dois bons filmes não é fácil. Ainda que Halfdan Ullmann Tøndel (sim, desses Ullmann) tenha sido competente na elaboração da sua primeira obra – tanto quando se limita ao drama, como indo além do convencional – misturar os dois foi um exagero. Esta longa ficou com quase duas horas. Com menos experimentalismo e uma duração normal teria sido grande. Mas como dizer a Reinsve para deixar de brilhar? Ou ao editor para deitar fora aquelas cenas? “Armand” podia ter sido muito bom. Assim, fica apenas a promessa de um estilo a ter em atenção. Filmes Filmes 2024 EscolaNuno Reis