Beetlejuice Beetlejuice Nuno Reis, 22 de Setembro de 202423 de Outubro de 2025 Existem filmes que definem uma era e outros que definem uma carreira. “Beetlejuice” talvez não fosse muito conhecido fora dos apreciadores do terror, mas foi a segunda longa de Tim Burton (depois de “Pee-wee’s Big Adventure”) e venceu o Oscar de melhor caracterização. Atendendo que quase não tinham orçamento para os efeitos visuais e toda a personagem de Beetlejuice foi um produto da imaginação de Michael Keaton, à data um actor de televisão a dar os primeiros passos em cinema, foi um grande feito. Por isso o actor ainda o descreve como a sua obra favorita e a única sequela que aceitaria fazer. Isso abriu-lhe as portas para ser Batman o que deu origem a uma carreira icónica. E Winona Ryder que conseguiu o papel por ter ficado meia hora à conversa com Burton sem saber quem ele era, conseguiu fazer ainda pior. Depois da sua carreira ter praticamente desaparecido, deram-lhe uma oportunidade como ícone dos anos 80 na série “Stranger Things”, a mais mediática série em muitos anos. A sua única condição no contrato foi “Se for chamada para um Beetlejuice 2, eu saio”. Claro que isso seria muito mau para a série, mas os produtores, sendo amantes dos anos 80 e admiradores da actriz, não o poderiam recusar. Até porque “Beetlejuice” foi o primeiro filme que a Netflix – enquanto empresa de aluguer de DVDs por correio – colocou no seu catálogo. Os seus destinos estavam irremediavelmente ligados. E acabou por correr bem para todos. Voltar ao lugar onde já se foi feliz é muito arriscado. O primeiro filme tinha Geena Davis e Alec Baldwin. Neste temos apenas os regressos de Keaton, Ryder e Catherine O’Hara. Mas para este juntam-se Jenna Ortega, a nova menina bonita do terror, e vários outros consagrados como Willem Dafoe, Monica Bellucci, Justin Theroux e até um cameo de Danny DeVito. Burton agora tem o estatuto e o dinheiro para fazer os filmes como quer e foi isso que tivemos. Não é mais um filme série B. É uma grande produção para um público que acharia de nicho. Nesta sequela a família Deetz volta à casa em que tudo aconteceu. Delia continua extravagante. Lydia criou toda uma personalidade famosa em torno do além. E depois há Astrid, uma adolescente alheia a todo esse mundo, que acha a avó clinicamente louca e a mãe uma impostora. Até que ela comete um pequeno erro e diz três vezes um nome que não deve ser dito, arrastando a casa e a vila para novo pesadelo. O filme desta vez tem outra confiança. Desenvolve várias narrativas em paralelo, esticando a atenção do espectador ao máximo. Actores competentes e um universo já bem conhecido resultam nisso. Todavia, um par dessas linhas podiam ter sido removidas sem nenhum problema. Nós só aqui estamos para ver efeitos especiais nojentos, piadas que não se ouviria em mais nenhum sítio e para números musicais inesquecíveis. O filme tenta fugir ao passado que o definiu e dar algo diferente. É nostálgico que baste para funcionar com um público generalista, é uma desilusão para quem queria Beetlejuice. Ainda que Keaton esteja na mesma e haja trocadilhos maravilhosos no submundo, o mundo dos vivos não é a mesma coisa. Esforçaram-se demasiado. Pelo menos sabemos que, se o título da terceira parte seguir a fórmula, nunca mais nos livraremos dele. E o mundo seria um lugar melhor. Filmes Filmes 2024 BeetleJuiceFantasmasNuno ReisSequelas