Blue Moon Nuno Reis, 25 de Fevereiro de 202625 de Fevereiro de 2026 Este vai dedicado a todos os que estão embriagados de amor não correspondido. Lorenz Hart foi parte da dupla Rodgers e Hart que compôs mais de 500 canções e 28 musicais. Rodgers viria a fazer uma dupla ainda mais famosa com Hammerstein que dou origem a “The King and I”, “The Sound of Music”, “South Pacific” (até hoje a única peça a receber os quatro Tonys de interpretação) e “Oklahoma!” de que se falará muito neste filme. Rodgers foi ainda o primeiro vencedor de um EGOT e até de um Pulitzer. Mas aqui não se fala muito de Rodgers. Vamos olhar principalmente para o quase esquecido Lorenz que morreu demasiado cedo e com um destino por cumprir. É uma enorme homenagem a uma pessoa singular. A história tem lugar num bar na noite de estreia de “Oklahoma!”. Hart está fulo por o seu fiel colaborador ter feito algo tão banal que será imortalizado por isso. Vai falando com o barman (um inesperado ) que tem ordens para não o deixar beber, com o pianista Stevie Sondheim (que será visto como o maior nome do teatro musical, fazendo carreira com “Sweeney Todd”, “Into the Woods” e “West Side Story”) e com o escritor E. B. White (autor de livros infantis como Stuart Little e Charlotte’s Web, além de vários ensaios). Ele espera por Elizabeth, uma jovem sua protegida que é também a sua grande paixão e esperança no futuro. O habitual mestre das palavras cantadas, nesta noite mágica tem a sorte de ter todos esses génios ao redor para lhe darem as palavras que lhe faltam. Para ser ainda melhor. Comecemos por dizer que usa o tempo como ninguém. É verdade que consegue fazer filmes normais, mas é famoso por fazer filmes que se desenrolam em apenas 24 horas. E por ter produções que excedem a capacidade de compreensão humana. Na famosa trilogia em que começou a trabalhar com foram dezoito anos. Para “Boyhood” foram doze. Para este foi uma década de espera até Hawke ter a idade certa para interpretar o protagonista. Valeu a pena? Basta ver uns vinte minutos para saber. Hawke não só tem a melhor interpretação do ano, como tem a sua melhor interpretação de sempre. Já antes era um grande actor, mas aqui carrega o peso do filme com uma leveza desconcertante. Tem frases maravilhosas a serem ditas de forma perfeita. Podia ser um monólogo dele sozinho em palco com um lençol como fundo e seria um dos filmes do ano. Quando começam a chegar outras pessoas vemos a diferença de estatura. Parece pequeno. Começa a sentir-se desprezado pelos heróis do momento e ignorado pelos restantes. Mas a sua mente e a sua língua continuam afiadas. E com uns minutos de conversa, volta a levar-nos para um reino onde a imaginação reina. Até que dá por si a falar sozinho, novamente insignificante. E assim seguimos por entre altos e baixos, numa noite que não é sua, onde quer estar para apoiar o amigo e não o perder de vez, mas no fundo também quer fugir para não lidar com a inveja. E como se Hawke não nos bastasse para dar espectáculo, depois chega o momento de ter uma devassa conversa com a tal Elizabeth que esperavamos (a sempre maravilhosa ) para falarem de sexo e de amor. Para compararem perspectivas das suas diferentes idades e estatutos. Além das várias metáforas e dos piscares de olho que faz à História da cultura americana, insinuando que Hart foi mais influente do que pensavamos, é um filme melancólico feito para agradar a todos. É sobre ser um génio, sobre ser uma influência, e sobre estar numa espiral destrutiva. Fala de lidar com a fama passada e admitir que o futuro não vai ser bom. Todos aqueles que são alguém deviam ver para recordar a sua humanidade, vulgaridade e efemeridade. E para aceitar que vão ser recordados, mas pode não ser por aquilo que gostariam. Mas os sorrisos no rosto de quem marcamos compensam todas as dificuldades. Filmes Filmes 2025 BiografiaMúsicaNuno Reis